HEROÍS OU VI LÕES?

Heráclito Mucache-Maputo

 

Porque era tempo de se expulsar o colonialismo. Porque era tempo de se libertar a terra mãe e o povo. Chipande deu o primeiro tiro. Nosso herói. Mas porque é sempre tempo de alguma coisa acontecer, alguém veio a público para questionar sobre a legitimidade desse primeiro tiro, <<terá sido ele quem deu o primeiro tiro?>>. Essas e outras dúvidas por mais que pareçam esquecidas e ignoradas, permanecem a roer em algumas consciências.

Éneste contexto que eu pergunto: que é um herói?

Será que pode-se ser herói por apenas um período/momento da vida (para libertar o país da opressão colonial)? E em seguida, deixar-se de sê-lo (tornar-se no novo colono-opressor)? Será?

Ora bem, a experiência popular já disse: <<Ou morre herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão>>, o filósofo Nietzsche diria: <<O homem nobre está sempre em risco de se converter num insolente, e num destruidor.>> Foram de facto valores nobres que moveram nossos heróis a pegar em armas e lutar contra o colonialismo? Ou havia efectivamente uma corrida pela posse da terra? Da riqueza?

Não quero ser ingrato nem insensato, mas estou a tentar perceber se de facto um homem nobre pode se converter num insolente, num assassino. Note que, é perceptível que um homem mau se torne bom, mas um homem verdadeiramente bom, tornar-se mau é seriamente discutível, salvo caso de doença.

Quando o povo não ama seus heróis, sinceramente há que questio­nar a legitimidade dos mesmos, sem dúvida que há excepções, mas a maioria tornou-se vilã. Fracassaram como heróis! Se deixaram cor­romper! Não resistiram! Ou nunca tiveram vontade de sê-lo e fazê-lo, pois se foram a guerra e arriscaram as suas vidas para libertar o povo, porque razão esse projecto de liberdade/revolucionário cessou?

Agrava-se o cúmulo quando dentre esses heróis aqueles há que até são poetas, reconhece esses versos? Aminha dor/ mais a tua dor/vão estrangular a opressão// Aminha revolta/ mais a tua revolta/ vão falando da revolução. Lindo não é? Foi escrito por um poeta-herói que perdeu a fé, assim o diríamos.

Amim parece me que, projectos emancipatórios não devem ter fim, fora de tudo o que se diz para ridicularizar ou desencorajar tais projectos, eles devem continuar, pois é típico do homem buscar remé­dios para as suas dores. África tem poucos heróis, Nelson Mandela é um deles, herói vivo, não chegou a se contradizer, não se tornou vilão. Éum herói eterno!

publicado por Revista Literatas às 16:47 | link