Manifesto do reencantamento social


Jorge de Oliveira - O País

1. Carlos Serra, historiador, consultor, um dos gurus da sociologia moçambicana, acrescentou à sua actividade editorial, antiga e relativamente extensa, este Ciências, Cientistas e Investigação (Manifesto do reencantamento social), ligado obviamente à ciência sociológica que nos rodeia, local e universal, recente e também mais antiga.
2. “A história foi durante séculos a dos reis, dos contos fantásticos, dos santos. Mas a partir do século XIX os historiadores impuseram uma outra disciplina, a de, na expressão clássica de Leopold von Ranke, escrever ‘o que aconteceu efectivamente’, princípio positivista claro e de grande fidelidade às ciências hard com a sua aposta na existência de um mundo real objectivo e cognoscível, na prova empírica e na neutralidade do historiador.”
3. O livro leva-nos à reflexão sobre questões sociais, antropológicas, sendo de destacar a facilidade com que se criam igrejas, partidos, associações, o que, sendo bom, porque demonstra a liberdade dos cidadãos se juntarem, reunirem, agruparem, tem o amargo de ser um factor que prova, pelo menos, três coisas: que ainda existe uma faixa elevada de cidadãos espiritual e intelectualmente fracos (vulneráveis, com espaço, em seus cérebros, vazio e virgem para ser explorado por charlatões); que o país pode estar infestado de uma gritante ausência de ideias e convicções (faz-se sempre do mesmo, combate ao sida, estudo do estudo, consultoria da consultoria); e que essas formas de aglomerado são um emprego, uma forma de ganhar a vida (e não um local em que os membros se juntam porque, realmente, de verdade, têm um ideal, pretendem bater-se por um princípio (partidos políticos criados como se fossem cogumelos, por causa do trust fund, pode ser um exemplo).
4. “Num país habituado a obedecer desde o colonialismo, a fragmentação da unicidade de comando pode ora levar as pessoas para um dos lados em conflito pela ‘propriedade’ de dar ordens (frequentemente quando a isso compelidas pela força das circunstâncias de sobrevivência), ora levá-las a não tomar partido, a ‘desobedecer’ a ambos (no caso vertente) os lado. O ganho e o entumescimento de uma espécie de cultura histórica do desacordo é, quanto a nós, evidente no país”.
5. Neste manual de Sociologia, praticamente apimentado com linhas por que se cose, também, a filosofia  e a história, é feita, ao de leve, uma incursão a um processo eleitoral autárquico e ao significado que os antepassados podem ter (e ainda têm) nas nossas comunidades.
6. O autor faz mesmo um apelo para que, chegados ao estágio actual de evolução, todos os cidadãos do mundo tenham por obrigação lutar contra as desigualdades (a favor do que chama de deserdados), por uma justiça social mais alargada. Parece uma luta inglória, perdida, utópica, mas ele apela a ter as suas convicções.
7. “Na verdade, o que nós, muitas vezes, analisamos no outro é o que somos, o que não somos, o que não pudemos ser, o que nós gostaríamos de ser ou não, o que amamos, o que odiamos. O nosso ponto de vista sobre os outros é um ponto de vista sobre nós tornado interrogação ou exercício face ao ponto de vista que também é do outro, produzido com ternura ou ódio ou ambas as coisas, arremessado ao outro, a quem carnivorizamos fazendo o nosso ponto de vista parecer o dele.”
8. Nota-se com interesse como Carlos Serra aborda com propriedade o hábito que prevalece, de uma ponta à outra do nosso país, de justificar fenómenos naturais através do recurso a imaginários poderes extra-terrestres; ele fornece com alguma felicidade uma válida explicação para as explicações que muitas pessoas (infelizmente) ainda seguem como forma de enfrentar eventos perfeitamente justificáveis pela lógica e ciência – por exemplo, o assassinato de pessoas que pretendiam evitar mortes, derivados da cólera, acusadas de serem agentes homicidas, esquecendo-se, de forma brutal e inaceitável, a própria doença e suas origens.
9. “A ‘doutorice’ é tão devastadora quanto a malária e a cólera. Ela bloqueia, enfatua, descerebraliza, fossiliza. Quantos ‘doutores’ não envelhecem contemplando carinhosamente, ano após ano, o seu certificado embalsamado, folheando a sua querida tese (à qual se limitam a acrescentar notas de rodapé até ao fim da vida) e indo periodicamente ao seminário ou congresso internacional onde apresentam um artigo que mais não é, uma vez mais, do que uma nota de rodapé da tese, a famosa, gloriosa e intransponível tese?”
10. Ganha-se algumas convicções, quando se chega ao fim da obra, e, entre os mais salientes, está a necessidade de se questionar, questionar, questionar sempre tudo o que nos rodeia – o desenvolvimento vem das diferenças, do espalhar dos benefícios, do diminuir dos pobres.
11. A viagem pelo texto que este cientista escreveu sobre os seus colegas, a ciência que os une e a investigação que realizam, é gratificante quanto mais não seja até para chegarmos ao fim com a lição bem estudada e podermos matar o mestre com o seu próprio veneno, discordando de grande parte das suas premissas.
publicado por Revista Literatas às 04:51 | link