A manifestação da palavra


Trata-se de uma opção de escrita, provavelmente inédita entre nós, onde tudo fala, tudo circula, tudo tem vida

De: Jorge Oliveira - Jornal O País
Prosseguindo na cruzada de atribuir a todas coisas, móveis e imóveis, tangíveis e intangíveis, lógicas e irracionais, o dom da fala ou, se quisermos, da comunicação, Calane da Silva traz, nestas Gotas, a personificação tendo por base a palavra. Coloca a palavra em movimento, como se ela própria falasse, pensasse e agisse deliberadamente (é, confesso, certo que, às vezes, fogem-nos da boca como se tivessem pernas). Trata-se de uma opção de escrita, provavelmente inédita entre nós, onde tudo fala, tudo circula, tudo tem vida.
1. No que diz respeito ao facto da palavra falar há algo que se pode acrescentar. É que o homem atingiu níveis de desenvolvimento e civilização acima dos outros animais, sobretudo devido ao facto de se comunicar, não por meio de sons ou ruídos, mas por via da palavra. A sofisticação dos códigos através dos quais se comunica, a fala, as línguas, os números, tornam-no o animal dos animais, e, aí, CS tem razão, a palavra é que manda.
2. “Traz palavras; para o alfabeto das ruas; na ponta dos dedos a madrugada; vende palavras; de sonho e disputa; nas praças-feiras do mundo; come pão-de-palavras o ardina.”
3. A magia, o alcance, a força, o valor, das palavras encontram-se patente de forma incisiva e por demais acentuada nestes pequenos textos, autónomos, que, agrupando-se, dão lugar a um corpo uno e compacto que é o livro. E a intenção concretiza-se, visto que o fio não se perde – vem, do princípio ao fim, o filão da palavra, nunca se perdendo o contexto, mesmo quando o género varia.
4. Os géneros são diversificados, o que também é, por cá, um tanto a quanto exclusivo, arranca com a poesia pura e simples, passa pelos sonetos, prosa poética e desagua na prosa, separando cada género – estilo em capítulos próprios. Não são comuns no nosso país livros constituídos por poemas e contos ao mesmo tempo, e muito menos com mais os sonetos e a prosa poetisada.
5. “Aqui uma estrela, ali um cometa, mais perto um planeta e quase tocando a sílaba da terra uma lua nasce o céu côncavo da boca. Depois, explodindo em novidade, vou colhendo as novas palavras já maduras. Encho o meu celeiro deste pão-de-espírito. São reservas semânticas prontas para novas machambas do lavrador de palavras.”
6. Títulos contendo expressões como Pescador de palavras ou A árvore que chorava palavras mostram que este é um livro de palavras sobre as palavras.
7. Essa opção depois corrobora-se com o conteúdo que é assente nesse mesmo diapasão, o remoinho onde a palavra que se chama palavra é o epicentro.
8. “As palavras de todas as línguas da minha terra são como a chuva de Dezembro humedecendo as areias morenas deste chão à beira-Índico. Como a nossa chuva, bênção amenizando as tardes, as nossas palavras têm cheiro, têm sabor, têm música. Quando caem dos lábios do céu desenham arabescos na terra sedenta de carícias d’água.”
9. Haverá alguma razão especial para se fazer um círculo (qual círculo vicioso) dentro do qual a escrita se centra na palavra (entanto que semáforo incontornável na nossa vida)? Muitas; mas a mais importante deve ser, porventura, a que assenta na defesa da liberdade de usar as palavras que, mais à frente, é a liberdade de expressão, e, no fundo, de pensar. Um lugar onde não se pode raciocinar diferente está condenado ao fracasso, seja uma casa, uma empresa, uma família, um clube, etc, etc, etc, ou uma nação. O direito a um pensamento plural, ao desvio das afirmações que parecem infalíveis, é mais do que metade do caminho andado para o desenvolvimento, para o bem estar e, indo ao encontro das pretensões do CS, para a justiça social.
10. Por isso CS ama muito as palavras do mesmo modo que as palavras amam o CS; é que são cúmplices nesse processo revolucionário (eterna e permanentemente) de poder ser livre de dizer coisas, criticar, analisar diferente, virar o que parece lógico ao contrário. Por isso ele se manifesta a favor da palavra que também se pode dizer são os pingos de sol que penetram no nosso quarto naqueles momentos em que o escuro impera. É um gotejar que nos dá luz para vermos o que doutro modo ficaria apagado na escuridão de um espaço, uma casa, uma nação, um continente.
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publicado por Revista Literatas às 06:17 | link