O Primeiro cliente

Eduardo Quive - Maputo
O Primeiro Cliente

Puta – disse o homem empenhando a a mão com mil quilogramas de porrada no rosto da mulher sexista. Tal mulher era Kotile. Menina que antes fora de terras que a honravam, com toda dignidade e esperança.

Era ainda o seu primeiro homem. Antes nenhum a tocara com tanta ousadia. Kotile percebera a vingança da vida na Rua Araújo e a traição da cidade grande que fora dos seus sonhos. Ka Pfumo não era nada. Antes se chamasse qualquer coisa. Mas que não fosse como se chamava. Mas Maputo é nome parecido com Puta. Embora não seja a razão.

Medinho, fora esse tal homem que com ousadia e macheza olhou para Kotile na Rua Araújo como pessoa digna da sua compra, para garantir a sua o sucesso do seu primeiro dia laboral’

Era sexta-feira. Dia 13. Dia das bruxas. Bruxas femininas. Os machos são bruxos, por isso que parecera um homem. Agora é assim mesmo. É emancipação até na bruxaria.

Nos corredores daquela rua, pisavam-se as lágrimas silenciosas da Kotila, circulava com mine saias, cujo tamanho não era digno de se chamar de mine saia. Parecia uma pura roupa interior. Pura porque era mesmo quase que um espelho lambido pelo orvalho. Se via tudo. Tudo mesmo.

Kotile era donzela, com pernas perpendiculares e ancas particulares. Não eram ainda dignos de destaque, mas os homens viam e viram. Os passos da sua inocência, ainda que transportassem a timidez da sua pele e o ardor do seu coração, pela pouca-vergonha, chamavam e atraiam a clientela. Que fazer. Coisas do coração não se vê. Diziam sempre a Tia Destina com o seu português pacato. “Vamos fazer mais como. É assim mesmo nwananga…”

Em instantes de câmara lenta, Kotile lembrara-se desses dizeres.

-          Filha o corpo de uma mulher assusta. I ma singita!

E a maré subia. Kotile choravam para casear os remorsos e a raiva do tempo. As lembranças que não deslembram. A verdade que não se omite e a realidade eminente. Era seu dia de sexo. Seria na Rua Araújo. No quintal de aluguer nos guardas da cidade. Ou na escadaria das ruínas da baixa. Onde ela baixava as saias para fingir que vestiu-se de saia. Mas não era nada. Era nudez e pouca-vergonha. Batom carregado fazendo os seus lábios de sangue seco. Resultado de muita sangração e dolorosa dor. Os olhos pintados a lápis de carvão, rimavam com o choro dos mochos sem abrigo e desabrigados nos ramos do Tunduro que cai e descai velho.

Aproxima-se medinho e despensa apresentações da dama!

-          Quanto é que é…?

Calou-se Kotile. Levantou o nariz e fingiu que respirava com vida. Mas o homem persistia e cada vez mais insistia. Como se fosse um acto de conquista.

Enfiou a mão pelas curvas das bem aventuranças e esmagou-lhe com força e dureza.

Kotile forçava-se a não reagir. Mas as mãos do homem foram mais longe. Medinho era homem macho. Fazia parte dos melhores da casa. Era cliente das noites da pouca vergonha. Todas o conheciam pela sua dureza, mas também, for quem tinha a missão de receber as novatas.

O destino traíra Kotile e o homem. Medinho fora o escolhido para receber a encomenda que caíra das bandas do Nkomane, nas margens de lá, onde Deus livrou-se dos homens e libertou os defuntos. Mortos que desafiaram os poderes da eternidade. Ou morriam para sempre se não quisessem viver para sempre. Advinha o que escolheram? Viver para sempre. Tombaram num inverno e noutro ressuscitaram com vinganças. Queriam vidas e mais vidas para que as profecias se concretizassem. Quais profecias? Que Nkomane não for a destinado aos vivos temporárias. Era para os viventes das eternidades.

Aos passos da recusa. Viu-se, Kotile, obrigada a encostar a parede e Medinho avançou-se com rapidez da água para o interior. Chegava ao ponto do alcance da pureza. Lá onde as mine saias já não conseguem proteger perante a sua masculinidade.

-          Ni tsiki! – Gritou Kotile sem mais suportar tal acto de obrigação sexual – mussatanhoku. Não me toques!

-          O qué. Sabes quem sou? Medinho. Nenhuma mulher nega-me nestas bandas e não serás a primeira. Puta! - Apressou-se para a porrada com a mão possuída por forças já antes vistas de si.

Kotile consentiu-se em instantes de silêncio no chão. Fora a primeira-mão a lhe roçar o rosto com tamanha força. Sente com muita dor os efeitos da bofetada. Pensa em silêncio mortífero. Em algum momento acredita que não tem mais dentes. As axilas não se sentem e a língua pareceu ter abandonado a sua boca. Cospe sangue e lágrimas fervidas. Chora. Mas é tudo em vão.

publicado por Revista Literatas às 04:15 | link