Sexta-feira, 23.09.11

Lurdes Breda: Apaixonada pelas palavras

Redacção Literatas

 

Na infância, qual foi o seu primeiro contacto marcante com a escrita?

 

Foi na escola, com a descoberta dos diversos textos literários e respectivos autores, assim como com a elaboração de composições: a aprendizagem do uso e do poder da palavra aliados à imaginação.

 

Que espaço os livros ocupam no seu dia-a-dia? A leitura, de alguma forma, influencia o seu trabalho e o seu quotidiano?

Os livros ocupam um papel de extrema importância na minha vida e a leitura é fundamental para a minha evolução e realização, que pessoal quer profissional, enquanto escritora.

 

O escritor peruano Mario Vargas Llosa certa vez disse o seguinte “a minha passagem pelo jornalismo foi fundamental como escritor”. Como porta-voz da sociedade você percebe na literatura ou no jornalismo uma função definida ou mesmo prática?

 

A literatura e o jornalismo, embora em paradigmas diferentes e cada qual utilizando metodologias próprias podem, por vezes, complementar-se. Dependendo do género literário e da forma como é trabalhado o jornalismo, pode existir, com certeza, uma função prática, sobretudo, neste último, uma vez que se deve pautar pela objectividade e rigor na informação. A literatura, no meu ponto de vista, tem uma função mais estética e subjectiva, embora mesmo através da literariedade se possa veicular determinadas mensagens mais ou menos práticas.

 

publicado por Revista Literatas às 17:26 | link | comentar

Relançado “Sangue Negro” de Noémia de Sousa

Na data em que a poetisa completaria 85 anos, 20 de Setembro de2011, aMarimbique reeditou “Sangue Negro” de Noémia de Sousa e proporciona-nos uma leve caminhada pelos corredores do tempo, ou melhor, da história, da revolta e da emoção.

 

Noémia de Sousa abraçado pelo Craveirinha

“Nossa voz ergue-se consciente e bárbara/ Sobre o branco egoísmo dos homens/ Sobre a indiferença assassina de todos”. Noémia de Sousa não poderia ter um interessante poema para dedicar a José Craveirinha, seu velho companheiro dos piqueniques que traçavam as linhas nacionalistas na última metade da década de 1950.

 

O poema “Nossa Voz”, que abre o livro “Sangue Negro”, lançado ontem em Maputo, na sua segunda edição – desta vez pela Marimbique – prepara-nos para um regresso à história, mas sem abandonar as fundamentais e humanas bases de actualidade que sempre compuseram Noémia de Sousa. Nelson Saúte, que assina o prefácio do livro, nunca escondeu esse profundo sentimento pela senhora que uma vez inspirada pelo spiritual ongs dos negros da América brandaria em versos “deixem passar meu povo”... Escrevíamos que Nelson Saúte nos prepara para esse regresso ao tempo que de que falávamos. Primeiro, ele assume-o ao postar a começar um conselho de José Craveirinha.

 

“Nelson: procura ser um fiel servo da memória de todos os tempos para que a tua voz se faça ouvir no teu tempo. E escuta com atenção o que te dizem as vozes de outras bocas, de outros mensageiros e as melodias de outras xipendonas. Então sentirás sobre os ombros o peso – o verdadeiro peso – de um genuíno legado, o legado do teu amanhã em que dirás com toda a humildade: ‘Sou um homem de ontem mas não me neguem um lugar de repouso nos céus do vosso Hoje.”

 

publicado por Revista Literatas às 17:17 | link | comentar | ver comentários (1)

Obséquio

Pedro Du Bois - Brasil

 

Obsequio o soneto:

digo em versos,

o muro erguido em tijolos diversos

guarda espaços inatingíveis, empilha

frutos ao relento. Recubro o soneto em ventos

soprados na expressão do verbo. Realizo

em sons o tormento do mar sobre as pedras.

Sobre as pedras ergo o muro: tijolo

resultante do cozimento do barro; início

cristalizado separa mundos: declamo

obsequioso o soneto. Silencio

paredes e portas em adjetivos.

publicado por Revista Literatas às 17:16 | link | comentar

Sangrar (e) sugar

Mukurruza - Lichinga

 

I

Estas mentes despidas;

Estas mentes desmentidas;

Estas mentes lúcidas;

Estas mentes fundidas.

 

II

São(me) encantos

Mas não são contos

Nem poesias, prosas ou sonetos,

Mas um tempo com (100) metros.

 

III

Talvez mendigue  cada instante

Da hora destas grades mentes

Que um dia brotara.

 

IV

Este é grito dos homens negros.

Não são gritos dos prumos

Das paredes crivadas.

 

publicado por Revista Literatas às 17:15 | link | comentar

Quando Cronico - Ando

Mauro Brito - Maputo

 

Antes de iniciar a minha empírica dissertação, agradecer a mim mesmo por ter a coragem de me ensaiar numa escrita de opinião de leitura, não se trata de um  ensaio literário, tampouco de um ensaio sobre obra alguma.

O que trago nesta bandeja de palavras, são apenas opiniões e pensamentos sobre a leitura que desembrulhei  na obra “Cronicando”  do escritor moçambicano Mia Couto, que encontrei numa livraria das esquinas. Olhando o título me sobressaltei de orgulho, como pode-se cronicar? Em que maneiras? Veremos. Recolhi a obra para as minhas mãos.

Tratava-se da segunda edição do “Cronicando”, em que o escritor trás as situações que o País tem enfrentado. “ Não se pode perder posse de um tempo que é nosso”. Diz o autor.

No “Cronicando” desde “  A carta,  O homem com um planeta dentro & Gentipo, suas gentis poeiras”, andei errando por elas, de noite e de dia, serrado e semi-serrado com os olhos e alma, não podia deixar de lê-las um dia sequer, mesmo que o quisesse, era como uma espécie de antídoto, para o acordar do dia seguinte.

As situações são reportadas em forma de palavra, como que uma prenda para o leitor, mesmo que não assíduo, “(...) ela sofria doença do chão, mais e de mais se deixando nos caídos/ Me entregava o papel marrotado. Dobrado em mil sujidades”

Ao longo da leitura dos textos fui descobrindo que quando cronicava as mesmas crónicas, isto é quando as lia, andava mais alguns metros de sabedoria e redescoberta do país em que vivo e que me viu nascer; o tempo em que foram lavradas as redigidas (1982), ainda a poeria da guerra lavrava sofrimento por onde passava, mas os mesmos ainda encaixam-se nas realidades que vivemos hoje. Concordo quando o dizem que os escritores quando exercem a escrita, no momento de construção, são também como futuristas na forma quando escrevem pois chegam a prever acontecimentos de uma terra, de um tempo, de uma geração.

Muitas das situações aqui trazidas sequer tem um autor, alguém a quem lhe podem pendurar o cartão de culpa, nem tampouco mandatários ou cumpridores, os problemas assim nessa inocência, não há necessidades de haver culpados, para que? Se nem a justiça aqui faz-se presente, também não tem quem lhe apoie, tudo isto como se o ovo chegasse primeiro que a galinha. “Cronicando” é uma visão e percepção das realidades do país, talvez quem for a lê-lo poderá aperceber-se das suas fragilidades, e depois construir um novo pais que ainda esta em construção, como diz o autor da obra talvez daqui há algumas décadas as crónicas nos ajudem a revisitar um período da nossa história

publicado por Revista Literatas às 17:01 | link | comentar

Rui de Noronha

Escritor moçambicano, António Rui de Noronha, nascido a 28 de Outubro de 1909,em Lourenço Marques(hoje, Maputo), e falecido a 25 de Dezembro de 1943, na mesma cidade, desde logo mostrou e deixou transparecer, na sua vida e na sua escrita, um temperamento recolhido, uma personalidade introvertida e amargurada. Foi, sem dúvida, um homem infeliz. Nunca chegou a concretizar, em vida, o grande sonho de publicar o seu livro de poemas, que se diz ter intitulado Lua Nova . Seria, postumamente, um grupo de amigos que viria a cumprir o seu desejo, ao publicar, em 1943, Sonetos , em parte composto de sonetos publicados na imprensa local.

 

Muitos dos seus poemas, porém, ainda se encontram inéditos, ou então esquecidos na Imprensa, como é o ocaso de “O Brado Africano”, na década de 30.

 

Poeta de transição, e vivendo numa época em que os escritores moçambicanos ainda não tinham tido a oportunidade de acordar a sua consciência para as mensagens poéticas de conteúdo social, caracteristicamente moçambicanas, por outro lado limitado como estava pela repressão cultural em que utilizar a África real como fundamento/tema-chave era imediatamente alvo do exercício diário da Censura, a obra de Rui de Noronha ficará marcada como o primeiro sinal expressivo, o precursor mesmo, de uma nova fase da poesia moçambicana, que viria mais tarde a alcançar o verdadeiro ponto de ruptura com o passado.

 

É fundamental, assim, chamar a atenção para a importância deste poeta que veio a anteceder, em cerca de mais de dez anos, o arranque, definitivo e altivo, para a construção de uma poesia tipicamente moçambicana.

 

Rui de Noronha estava desacompanhado neste fulcral início; estava completamente desamparado e retraído por um sistema que impedia a existência de uma tradição literária moçambicana. Daí que o poeta se visse forçado a agarrar-se aos modelos portugueses - com vínculos do século passado ou dos princípios do século XX. Daí que “apenas” tenha conseguido murmurar as reivindicações do seu povo, em vez de as gritar e levar bem longe; daí que “apenas” tenha podido insinuar os valores africanos, o sofrimento do homem moçambicano, a injustiça criada pelo colonialismo, em vez de os denunciar clara e explicitamente.

 

Mesmo que assim tivesse que ser, Rui de Noronha manifesta a sua clara intenção e consciencialização da necessidade de moçambicanizar os modelos estéticos tradicionais portugueses: incorpora, em muitos poemas, discursividades (palavras e expressões) próprias de Moçambique. Em muitos dos seus textos encontramos uma espécie de simbiose entre a oratura (forma oral de transmissão de conhecimentos) e a escrita , numa tentativa de exigir a reabilitação nacional. Neste sentido, poderá claramente dizer-se que a acção dos seus poemas é sempre orientada para os caminhos do futuro: os caminhos que levarão à moçambicanidade .

 

Sintetizando o principal papel levado a cabo por este magnífico poeta, poder-se-á dizer que, na década de30, apoesia moçambicana, pela voz de um dos seus maiores poetas - Rui de Noronha - exprime, com elevado grau de firmeza, as oposições racial, económica e cultural que definem as relações colonizador versus colonizado. Rui de Noronha teve essa consciência nacional e, em termos de criação literária, iniciou a expressão dessa situação. Certo é que essa expressão começou por ser algo tímida, embora sempre extremamente fecundante, o que será facilmente compreensível se tivermos em conta a época de repressão vivida em Moçambique, dominada por um fortíssimo e intransigente sistema colonial. Mesmo assim, Rui de Noronha é universalmente apontado como o iniciador da mais poderosa aposta na desalienação cultural e política, persistindo na construção de uma literatura autónoma, verdadeiramente nacional.

publicado por Revista Literatas às 16:38 | link | comentar | ver comentários (1)

A Revista Literatas

é um projeto:

 

Associação Movimento Literário Kuphaluxa

 

Dizer, fazer e sentir 

a Literatura

Setembro 2011

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
29

pesquisar neste blog

 

posts recentes

subscrever feeds

últ. comentários

Posts mais comentados

tags

favoritos

arquivo

blogs SAPO