Sábado, 13.08.11

Burocracia x sociedade

                                                                                                                                                     Adelto Adelto Gonçalves (*)

                                                           I

            No século 19, os pensadores liberais imaginavam que, com o desenvolvimento da livre empresa, a função do Estado iria se reduzir ao mínimo, pois a evolução da espécie humana seria espontânea. Os anarquistas também idealizavam um mundo em que as grandes questões seriam resolvidas pela livre discussão e o Estado ficaria cada vez menor até sumir. Os comunistas, que fizeram do Estado instrumento para a tomada do poder em nome dos operários e camponeses, acreditavam (ou fingiam acreditar) que, com o socialismo, o Estado seria pulverizado, até o seu lento desaparecimento.

            Como se sabe, nenhuma dessas previsões se confirmou. O Estado está cada vez mais forte e, nas mãos de tiranos – que geralmente não passam de pessoas medíocres, malvadas e extremamente egoístas, que costumam acumular riqueza em paraísos fiscais ou na velha Suíça –, torna-se o Leviatã imaginado pelo filósofo inglês Hobbes (1587-1666), sempre pronto a ajudar os mais favorecidos, em detrimento das massas marginalizadas, seguindo as recomendações da oligarquia financeira transnacional.

            Como disse o poeta e pensador mexicano Octavio Paz (1914-1998), no ensaio “El ogro filantrópico” (1978), o Estado moderno constitui uma superestrutura de grandes empresas, sindicatos empresariais, centrais sindicais (que representam muitos interesses, menos os dos trabalhadores em nome dos quais atuam) e uma burocracia que vive em contínua relação com os grupos com os quais compartilha o domínio da máquina estatal. Por isso, segundo Paz, o Estado moderno é hoje uma máquina, mas uma máquina que se reproduz sem cessar.

            Portanto, o grande desafio de hoje, ao menos daqueles que ainda têm um pouco de consciência social, é imaginar formas de impedir que a máquina estatal – a nível federal, estadual ou municipal – seja tornada refém dos interesses de empreiteiros e políticos ávidos por obras públicas que, muitas vezes, nenhuma finalidade social têm. Não é a toa que lemos nos jornais tantas notícias sobre obras superfaturadas, prédios, pontes, rodovias e viadutos que não foram concluídos e viraram monstrengos urbanos, dinheiro desviado de fins mais nobres, como merenda escolar e compra de medicamentos, e toda a sorte de patifaria que o despudor humano pode imaginar.

            Fazer com que a burocracia tenha maior integração com a sociedade é uma luta cada vez mais vã, pois o natural é que a máquina administrativa se adapte aos interesses dos políticos e dos partidos que assumem o poder. E, como ninguém chega ao poder por força de seus próprios recursos financeiros, é preciso satisfazer àqueles que financiam a campanha. Em outras palavras: empresas ou empreiteiros precisam ganhar licitações arranjadas e arrematar contratos superfaturados para que não só tenham altos lucros e possam crescer como ainda manter um fundo de caixa para financiar outros políticos e novas campanhas.

            Assim segue o Estado patrimonialista, de que falava o pensador alemão Max Weber (1864-1920), em que famílias ou clãs dominam os negócios que seriam públicos. E a sociedade como fica? Ora, periodicamente, é chamada para coonestar eleições manipuladas pela força do dinheiro. No resto do tempo, fica esquecida porque fora do Estado não há nada nem ninguém.

            

 

publicado por Revista Literatas às 08:29 | link | comentar

AS MARGENS DA NAÇÃO NA POESIA DE SANGARE OKAPI E HELDER FAIFE

Jessica Falconi
Università degli Studi di Napoli
“L’Orientale”- Itália
CES - Portugal
RESUMO:
O artigo propõe uma leitura de Mesmos barcos, de Sangare Okapi (2007), e Poemas em sacos vazios que ficam de pé, de Helder Faife (2010), como exemplos de evocação de algumas margens da nação moçambicana no pós-independência.
PALAVRAS-CHAVE: Poesia moçambicana; Sangare Okapi; Helder Faife
Pensar nos lugares da nação tem sido, e continua a ser, uma das práticas centrais nas literaturas surgidas em contextos de dominação colonial, na medida em que o espaço físico da nação, com todas as suas fronteiras, internas e externas, se faz “significante” de um conjunto de questões que envolvem processos e fenômenos de inclusão e exclusão, conflitos identitários que remetem para múltiplas memórias, histórias e diásporas. É através da evocação dos lugares que, de fato, também se recuperam heranças culturais e histórias outras, apagadas ou marginalizadas, pelas narrativas coloniais, e/ou pelas novas narrativas nacionais, questionando-se conceitos de pertença, autenticidade, cidadania. A metáfora do “mapa” é, de fato, frequente nas literaturas pós-coloniais, enquanto estratégia que, a partir das margens, questiona e reformula as lógicas de inclusão e exclusão, reconfigurando as relações culturais e identitárias (HUGGAN, 1995, p. 407). Nessa perspectiva, os lugares da nação proporcionam também um terreno para se equacionarem, de modo crítico, as continuidades e descontinuidades entre passado e presente, no intuito de continuar a imaginar e criar múltiplos futuros possíveis.
publicado por Revista Literatas às 08:13 | link | comentar
Quarta-feira, 03.08.11

Como é que se escreve Choriro?

Ao Aurélio Furdela

Lucílio Manjate - Maputo


 

A epistemologia que conferiu à ciência a exclusividade do conhecimento válido traduziu-se num vasto aparato institucional – universidades, centros de investigação, sistema de peritos, pareceres técnicos – e foi ele que tornou mais difícil ou mesmo impossível o diálogo entre a ciência e os outros saberes.

Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses

In Epistemologias do Sul, 2009

 

O problema é que o grosso dos países africanos têm cultura ágrafa, e eu pergunto: antes da chegada dos colonialistas, não curávamos a malária ou ela não existia? Havia dentistas no século treze? O preto não sofria de dentes? Só começou a sofrer de dentes depois da colonização? Mas como nós não tínhamos escrita, isso trouxe o problema da aculturação, da rejeição da cultura. Diz-se ser um mundo supersticioso e eu digo não, esse mundo supersticioso tem o seu quê de racionalidade, para sustentá-la, vi que a literatura é um caminho, e quem abriu esse caminho foram os latino-americanos, eles tomaram aquilo que os ocidentais consideraram irracionalidade como uma base para racionalidade própria.

Ungulani Ba Ka Khosa,

In Proler, n.0 3 Março/Abril 2002, “Somos um país promíscuo” – Entrevista

 

 

  1. 1.      Do projecto do autor...

Uma, entre outras questões que se colocam ao ler-se o último romance de Ungulani Ba Ka Khosa, Choriro, é sobre o conhecimento. Trata-se de um apelo a uma discussão epistemológica sobre os desafios que se colocam, num primeiro plano, à ciência histórica, essa narração metódica de passados, na produção do conhecimento a partir de um olhar local, de dentro. Esta proposta pode ler-se na nota que Khosa faz questão de colocar no livro:

“Este retrato de um espaço identitário, de uma utopia que se fez verbo, assentou na rica e impressionante História do vale do Zambeze no chamado período mercantil. A intenção do livro foi a de resgatar a alma de um tempo, a voz que não se grudou aos discursos dos saberes. O fundamento histórico valeu-me como porta de entrada ao mundo de sonhos e angústias por que o vale do Zambeze passou durante mais de quatro séculos…”

Choriro, um lamento, uma espécie de exorcismo ao “epistemicídio”[1] africano; um discurso que procura resgatar essas vozes abafadas, silenciadas ao longo do processo de produção desse conhecimento que temos sobre nós próprios e sobre outros.

Subjaz neste projecto um fundamento existencialista, a ideia de que o facto dessas vozes vincularem-se ao universo da oralidade não lhes permite afirmarem-se como um discurso válido e promotor de um conhecimento produzido a partir de dentro. Isto significa, ironicamente, que “os discursos dos saberes”, a que Khosa se refere em alusão à epistemologia promovida pelo Ocidente, produziram e promoveram um conhecimento sobre a “nossa” realidade a partir de fora, portanto, não intercambiando os afectos, não ouvindo essas outras vozes, exactamente pela sua natureza ágrafa, imprecisa e dúbia.


  1. 2.      ...ao testemunho do narrador
Ungulani

Assim se entende por que, em Choriro, os afectos em relação aos objectos observados são potenciados num  jogo de racionalidades que se negam, alegorizando formas variadas de conhecer e teorizar o próprio conhecimento. Veja-se o exemplo:

Em geral, os indígenas, nas frequentes e animadas conversas em volta da fogueira, de tanto acharem natural  a beleza circundante, não se extasiavam com o intermitente luzir dos pirilampos, a miríade de estrelas abarrotando o céu, o sussurro das folhas das árvores, ou o longícuo rugir de um leão na savana dos predadores da noite. Eles pasmavam-se com o encantamento de Chicuacha [o padre branco] ante o nascimento, na entrada abrupta da noite, das ilhas de fogo com que os canoeiros e carregadores pintavam as noites ao longo do leito do Zambeze. Na escuridão das águas, era-lhe possível observar os intrigantes olhos dos crocodilos que à direita e à esquerda perscrutavam os movimentos humanos. Seguros nos pequenos e confortantes pedaços de terra, os canoeiros pouca atenção prestavam aos reptéis das águas. Estes, silenciosos, reluziam os olhos enquanto as línguas de fogo iam, aos poucos, fenecendo com a madrugada que ia abatendo as estrelas.” – p. 20.

A naturalidade com que os indígenas observam a realidade circundante, a ponto de se imiscuirem nela como um todo harmonioso – repare-se que canoeiros e carregadores deixam-se estar serenos no leito do rio, partilhando as mesmas águas com os crocodilos – é antítese da artificialidade estampada no olhar de Chicuacha, para quem essa aliança não só não faz sentido como é perigosa. Mas é exactamente a essa aliança a que  Etounga-Manguelle (1991) se refere ao tentar caracterizar os valores de África, os quais, exactamente por serem consubstanciais a tudo a que a África diz respeito, caracterizarão a forma como o continente deverá (re)produzir um conhecimento localizado. Essa epistemologia, entre outros valores, será caracterizada por “uma inserção pacífica com o meio ambiente”[2]. Mas o que se entenderá por tal inserção?

 

 

publicado por Revista Literatas às 10:55 | link | comentar | ver comentários (2)

Viver a arte de escrita a volta da fogueira

Lino Sousa Mucuruza - Lichinga

Linomucuruza2010@yahoo.com.br


Gincana de Arte

O espaço “Gincana de Arte” reúne todos os sábados vários artistas em sarau cultural a volta da fogueira, num dos maiores bairros da cidade de Lichinga. Em Chuaula, a tertúlia literária, faz-se sentir num movimento artisticamente diferente.

 

Gincana de Artes é um projecto literário idealizado pelo artista plástico, músico e jornalista da Rádio Moçambique – Emissor Provincial do Niassa, Eduardo Tocolowa, e o poeta declamador, igualmente, jornalista da província do Niassa, Mukurruza. O projecto, reflecte-se na realização semanal de saraus culturais aos sábados, num dos maiores bairros da província nortenha de Moçambique, denominado Chuaula, e a missão do mesmo, é a revitalização dos espaços culturais na cidade de Lichinga,

Numa altura em que a cidade de Lichinga vivia um silêncio cultural, com o encerramento do Cine ABC, outrora, o maior espaço que deu parte para a realização de muitos eventos culturais tais como, teatro, música, cinema, poesia e outras formas de expressão cultural, a nível provincial. No ABC, actuaram, igualmente, vários grupos culturais reconhecidos no País, como a Companhia de Teatro Gungu da capital moçambicana.

Mas, outras forças tomaram o espaço que pertencia a arte e os artistas. A infra-estrutura foi concessionada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

Vendo-se o silêncio, jovens uniram-se para criar a Gincana de Arte, espaço que reúne várias artes desde a poesia, teatro danças tradicionais, música artes plásticas, contadores de estórias e histórias, tudo a volta da fogueira.

Em entrevista concedida a revista Literatas os artistas revelaram a sua satisfação com a iniciativa, uma vez estar a revitalizar o desenvolvimento da arte a nível da província.

Pedro Fabião Pedro, poeta da província do Niassa com residência na cidade de Lichinga considera ser louvável, o projecto Gincana de Arte, e disse que vai trazer muitos benefícios não só para os artistas mais também para a província como também o País.

De acordo com Pedro, o País precisa de iniciativas do género para fortalecer a cultura moçambicana com particularidade na província do Niassa, por isso apoia a continuidade do espaço uma vez ser o único lugar já existente para os artistas.

“Terem nos tirado, no ano passado, o Cine ABC, aquele que era o maior espaço da província, para dar lugar o funcionamento da igreja, é lamentável. O governo, simplesmente não entreviu. Mas os artistas apesar de ficarem sem pai não arregaçaram as mangas e agora com o espaço Gincana de Artes veremos se pelo menos substitui o Cine ABC e possam fluir vários talentos, porque esse é um dos objectivos.”

Por sua vez, Eduardo Tocolowa, um dos mentores da iniciativa, para a Literatas, não escondeu a sua satisfação pelo espaço Gincana de Artes.

“Este espaço demorou chegar, mas como o chegou é só louva-lo e enveredar esforços para que esta iniciativa não termine por aqui. Para a criação deste programa, não custou – nos algum dinheiro. Vimos que a Direcção Provincial de Educação e Cultura não aposta nas nossas iniciativas e nos decidimos fazer as coisas da nossa maneira.”

Se contaram com apoios para a concretização da iniciativa, Tocolowa disse que “ já tivemos alguns apoios com pessoas singulares que nos deram uma viola e um piano, instrumentos que estão em uso no nossos espaços e temos também o apoio do proprietário do lugar onde a nossa arte funciona.”

Para terminar, o nosso entrevistado, teceu críticas à atitude dos responsáveis pela área da cultura a nível da província do Niassa.

“Se a Direcção Provincial da Educação e Cultura tivesse este espírito os nossos espaços teriam outra credibilidade no que concerne a valorização das nossas artes. Mas tristemente só existe esta instância, quando se trata de um festival e outros eventos de âmbito nacional e é por isso que as actividades culturais, muitas vezes, fracassam por falta de preparação e assim facto que nos deixa agastados.” Concluiu.

publicado por Revista Literatas às 10:34 | link | comentar | ver comentários (2)
Segunda-feira, 01.08.11

Já se encontra em Maputo a escritora brasileira Ana Rusche

Eduardo Quive - Maputo
Já se encontra na capital moçambicana, Maputo, a escritora brasileira, Ana Rusche, que vem ao País com o propósito de conhecer a Associação Movimento Literário Kuphaluxa bem como capacitar jovens escritores e amantes da literatura no geral, sobre as técnicas de escrita na literatura contemporânea.
Hoje, Ana Rusche, inicia as suas actividades de trabalho literário em Maputo, com uma entrevista que fará à escritora Sónia Sultuane, de Moçambique, as 10 horas no Centro Cultural Brasil – Moçambique.
Quando forem 17 horas, esta, vai iniciar a Oficina Literária com jovens amantes da literatura e estudantes no auditório do CCBM.

 

Amanhã, quando forem 14:30h, a escritora vai proferir uma palestra, sobre o tema “Porquê Ler”, na Escola Industrial 1º de Maio em Maputo, no âmbito do projecto “Literatura na Escola”, que desenvolvido pelo Kuphaluxa, desde o ano passado, já levou os escritores, Ungulani Ba Kha Khosa, Paulina Chiziane, Marcelo Panguana, Juvenal Bucuane, em várias escolas das cidades de Maputo e Matola.
Na quarta-feira, Ana Rusche, vai participar de um Sarau Cultural, a ser realizado no CCBM as 18 horas.
Na quinta-feira, as 09:00h, Ana visitará a Casa do poeta-mor, José Craveirinha e no mesmo dia, a escritora vai ministrar uma palestra na AEMO, num painel em que estará acompanhada pelo secretário geral da AEMO, Jorge de Oliveira, onde oferecerá vários livros à instituição.
Na sua bagagem, Ana Rusche traz, igualmente, livros da sua autoria e de outros autores do Brasil, para doar ao Kuphaluxa e a Escola Industrial 1º de Maio.
Refira-se que durante os cinco dias, Ana Rusche, vai entrevistas escritores moçambicanos, que culminará na publicação de um livro com as entrevistas, já no Brasil.
publicado por Revista Literatas às 08:32 | link | comentar

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