Sábado, 09.07.11

Gurúè

Japone Arijuane - Maputo
O Mundo onde o nada diz tudo.
Bendito seja dito somente para ti!
Obra da arte natural
Verde com nunca
Firme com sempre
A mãe natureza tem aqui um sossego divino
A contemplação infinita reside nas entranhas desta vista
Beleza, as fertilidades ostentadas pela sua superfície
Fazem de ti,
O pulmão,
O celeiro,
O oxigénio,
O tudo zambeziano
Se foi deus adeus pelo embelezamento,
Alias, que haja deus embelezador.

publicado por Revista Literatas às 05:30 | link | comentar

Percursos, Trilhos e Margens: recepção e crítica das Literaturas Africanas em Língua Portuguesa

14 e 15 de Julho de 2011, Auditório do CIUL/CES-Lisboa, Picoas Plaza, Rua do Viriato, 13
Introdução
Na sequência dos dois ciclos de Colóquios-Cursos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (2007 e 2009), organizados pelo CES, propomos um Colóquio Internacional de reflexão sobre a recepção crítica destas literaturas.
A reflexão será feita a partir de vários lugares geográficos (Europa, África, Américas), disciplinares e epistemológicos, procurando pôr em diálogo diversas gerações de académicos, criadores, editores e jornalistas. Contamos assim com a participação de oradores nacionais e estrangeiros, ligados às áreas da investigação e crítica literária, da edição, do jornalismo e divulgação, das políticas culturais, e da produção literária.
Pretende-se proporcionar um conjunto de itinerários teóricos transversais a estes diferentes sistemas literários, reflectir em torno dos paradigmas teóricos e metodológicos que têm orientado os estudos das literaturas africanas de língua portuguesa e promover uma maior articulação entre o debate crítico e criativo e as múltiplas dinâmicas da sua projecção social, analisando o papel e as instâncias do mercado editorial, e de outros órgãos de disseminação e comunicação social que participam no circuito da recepção dentro e fora do espaço de língua portuguesa.


Programa [versão em PDF para download]
Quinta-feira, 14 de Julho
09h30-10h00 | Sessão de Boas vindas

José Marcos Barrica (Embaixador de Angola em Portugal), André Heráclio do Rêgo (CPLP), José Luandino Vieira (Escritor),Margarida Calafate Ribeiro (CES),Jessica Falconi(CES), Elena Brugioni (CEHUM),
10h00 | Comunicação de Abertura: Tempos e Espaços. Reflectindo em torno da recepção das Literaturas Africanas de língua portuguesa por Laura Cavalcante Padilha [UFF]
11h00 | Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: Paradigmas e Itinerários Críticos
Pires Laranjeira (FLUC), Inocência Mata (UL), Carmen Tindó Secco (UFRJ)
Moderação: Elena Brugioni (CEHUM)
12h30 | Pausa para Almoço

14h30 | Mesa Redonda Recepção e Crítica nos Media. Com José Carlos Vasconcelos (Jornal de Letras), João Céu e Silva (Diário de Notícias), Marta Lança, Luís Carlos Patraquim, João Melo (Revista África 21). Moderação: Odete Semedo
16h30 | Mesa Redonda com Ana Paula Tavares [*], Luís Carlos Patraquim, Ana Mafalda LeiteModeração: Jessica Falconi
18h00 | Pausa para Café
19h00 | Lançamento do Livro Literaturas da Guiné-Bissau: contando os escritos da história (Afrontamento, 2011). Apresentação de Inocência Mata.

Sexta-feira, 15 de Julho
09h30 | Crítica Literária e Paradigmas Pós-coloniais
Silvio Renato Jorge (UFF), Livia Apa (UNO), Elena Brugioni (CEHUM), Simone Pereira Schmidt [UFSC]. Moderação: Carmen Tindó Secco
11h30 | Pelos Trilhos da Escrita: Narração e Crítica Literária. Com Odete Semedo (INEP), Jessica Falconi(CES), Moema Parente Augel (UB). Moderação: Pires Laranjeira
13h00 | Pausa para Almoço

15h00 | Mesa Redonda Políticas e Circuitos Editorais. Com Zeferino Coelho (Caminho), José Sousa Ribeiro (Afrontamento), Cecília Andrade (Dom Quixote), André Heráclio do Rêgo (CPLP). ModeraçãoMargarida Calafate Ribeiro
16h45 | Mesa Redonda com José Luandino Vieira, Joaquim Arena, João Melo, Odete Semedo. Moderação: Laura Cavalcante Padilha
18h15 | Pausa para Café
19h00 | Lançamento do Livro Literaturas Insulares: Leituras e Escritas de Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe(Afrontamento, 2011). Apresentação de Laura Cavalcante Padilha.
[*] a confirmar

Apoios:
publicado por Revista Literatas às 04:17 | link | comentar

O Primeiro cliente

Eduardo Quive - Maputo
O Primeiro Cliente

Puta – disse o homem empenhando a a mão com mil quilogramas de porrada no rosto da mulher sexista. Tal mulher era Kotile. Menina que antes fora de terras que a honravam, com toda dignidade e esperança.

Era ainda o seu primeiro homem. Antes nenhum a tocara com tanta ousadia. Kotile percebera a vingança da vida na Rua Araújo e a traição da cidade grande que fora dos seus sonhos. Ka Pfumo não era nada. Antes se chamasse qualquer coisa. Mas que não fosse como se chamava. Mas Maputo é nome parecido com Puta. Embora não seja a razão.

Medinho, fora esse tal homem que com ousadia e macheza olhou para Kotile na Rua Araújo como pessoa digna da sua compra, para garantir a sua o sucesso do seu primeiro dia laboral’

Era sexta-feira. Dia 13. Dia das bruxas. Bruxas femininas. Os machos são bruxos, por isso que parecera um homem. Agora é assim mesmo. É emancipação até na bruxaria.

Nos corredores daquela rua, pisavam-se as lágrimas silenciosas da Kotila, circulava com mine saias, cujo tamanho não era digno de se chamar de mine saia. Parecia uma pura roupa interior. Pura porque era mesmo quase que um espelho lambido pelo orvalho. Se via tudo. Tudo mesmo.

Kotile era donzela, com pernas perpendiculares e ancas particulares. Não eram ainda dignos de destaque, mas os homens viam e viram. Os passos da sua inocência, ainda que transportassem a timidez da sua pele e o ardor do seu coração, pela pouca-vergonha, chamavam e atraiam a clientela. Que fazer. Coisas do coração não se vê. Diziam sempre a Tia Destina com o seu português pacato. “Vamos fazer mais como. É assim mesmo nwananga…”

Em instantes de câmara lenta, Kotile lembrara-se desses dizeres.

-          Filha o corpo de uma mulher assusta. I ma singita!

E a maré subia. Kotile choravam para casear os remorsos e a raiva do tempo. As lembranças que não deslembram. A verdade que não se omite e a realidade eminente. Era seu dia de sexo. Seria na Rua Araújo. No quintal de aluguer nos guardas da cidade. Ou na escadaria das ruínas da baixa. Onde ela baixava as saias para fingir que vestiu-se de saia. Mas não era nada. Era nudez e pouca-vergonha. Batom carregado fazendo os seus lábios de sangue seco. Resultado de muita sangração e dolorosa dor. Os olhos pintados a lápis de carvão, rimavam com o choro dos mochos sem abrigo e desabrigados nos ramos do Tunduro que cai e descai velho.

Aproxima-se medinho e despensa apresentações da dama!

-          Quanto é que é…?

Calou-se Kotile. Levantou o nariz e fingiu que respirava com vida. Mas o homem persistia e cada vez mais insistia. Como se fosse um acto de conquista.

Enfiou a mão pelas curvas das bem aventuranças e esmagou-lhe com força e dureza.

Kotile forçava-se a não reagir. Mas as mãos do homem foram mais longe. Medinho era homem macho. Fazia parte dos melhores da casa. Era cliente das noites da pouca vergonha. Todas o conheciam pela sua dureza, mas também, for quem tinha a missão de receber as novatas.

O destino traíra Kotile e o homem. Medinho fora o escolhido para receber a encomenda que caíra das bandas do Nkomane, nas margens de lá, onde Deus livrou-se dos homens e libertou os defuntos. Mortos que desafiaram os poderes da eternidade. Ou morriam para sempre se não quisessem viver para sempre. Advinha o que escolheram? Viver para sempre. Tombaram num inverno e noutro ressuscitaram com vinganças. Queriam vidas e mais vidas para que as profecias se concretizassem. Quais profecias? Que Nkomane não for a destinado aos vivos temporárias. Era para os viventes das eternidades.

Aos passos da recusa. Viu-se, Kotile, obrigada a encostar a parede e Medinho avançou-se com rapidez da água para o interior. Chegava ao ponto do alcance da pureza. Lá onde as mine saias já não conseguem proteger perante a sua masculinidade.

-          Ni tsiki! – Gritou Kotile sem mais suportar tal acto de obrigação sexual – mussatanhoku. Não me toques!

-          O qué. Sabes quem sou? Medinho. Nenhuma mulher nega-me nestas bandas e não serás a primeira. Puta! - Apressou-se para a porrada com a mão possuída por forças já antes vistas de si.

Kotile consentiu-se em instantes de silêncio no chão. Fora a primeira-mão a lhe roçar o rosto com tamanha força. Sente com muita dor os efeitos da bofetada. Pensa em silêncio mortífero. Em algum momento acredita que não tem mais dentes. As axilas não se sentem e a língua pareceu ter abandonado a sua boca. Cospe sangue e lágrimas fervidas. Chora. Mas é tudo em vão.

publicado por Revista Literatas às 04:15 | link | comentar | ver comentários (1)

Noites da Minha cidade

 

Jessemusse Cacinda - Nampula 

Nampula
 
São longas noites
Que passo aos sonos moribundos
Me desespero no açoite
Daqueles que têm fundos
Passo! Versos de amor
Escrevendo
E versos de dor
No papel pintando
Utopias metafísicas
Acompanham as veias poéticas
Que me levam a não dar ouvidos
As críticas Platónicas
Muikhwiris(1) rondando a minha palhota
Voando na peneira para qualquer frota
Prostitutas sem medo circundam
matador (2) e de carro em caro saltitam
É tempo de fazer dinheiro
Que é o bem supremo
Pelo mundo inteiro
Outros roubam, outros agridem
E sobre o corpo de outrem, outros se estendem
E eu, rico de tanta pobreza
Confesso os pecados que cometi durante o dia
Com coragem e frieza
Escrevo esta poesia
____________________________________ 
(1)   Feticeirio em Emakhuwa, língua de nampula
(2)   Nome do meu bairro


publicado por Revista Literatas às 04:02 | link | comentar

Mario Vargas Llosa: um escritor mercenário e imbecil?

 

Victor Eustaquio - Lisboa



«Si hay un escritor mercenário de causas políticas, ese es Vargas Llosa, pero, aunque respecto al análisis político y económico es un imbécil». Apanhei a frase num curioso fórum de discussão, com uma esmagadora participação de latino-americanos, a propósito da atribuição do Nobel da Literatura ao popular autor peruano. Neste mesmo fórum, há quem mesmo que afirme que «Vargas Llosa sí se acomodó a los grupos de poder político y económicos. De hecho, el premio (o Nobel) es más geopolítico que otra cosa».

Em suma, a tendência dominante que passa por este fórum pode ser traduzida por um outro comentário que nele encontrei: «Vargas Llosa & asociados representan al golpismo y son correa de transmisión del neofascismo. Ubicar a estos personajes en la “derecha” del arco político seria cumplido ideológico. No es grave que haya oposición y escritores de derecha. Lo grave es que la abyección sea plataforma de sus princípios.» Para quem leu algumas das obras mais recentes como «A Festa do Chibo» e, inevitavelmente, «O Sonho do Celta», apenas para citar duas, estava em crer que seria evidente o posicionamento político de Vargas Llosa e o sentido da sua militância a favor de determinadas causas de ordem política, os quais, aliás, julgava eu, haviam recolhido um consenso favorável sobretudo em sociedades que experienciaram a pressão colonial. Contudo, perante estas vozes dissonantes, questiono-me: terei lido bem? Terei conseguido perceber o significado e o alcance ideológico de Vargas Llosa? É que, independentemente da representatividade das opiniões acima citadas, começo a ficar com a impressão de que há, com efeito, sinais de inquietação junto de alguns sectores da opinião pública latino-americana quanto a Vargas Llosa. E isto para não falar nas insinuações veladas, que igualmente tenho encontrado em sites de alinhamento ideológico semelhante, quanto à sua alegada e reprovável orientação sexual (como se essa dimensão também devesse ser lida como um denominador comum para a avaliação da (des) integridade moral e política do autor, quando na verdade Vargas Llosa mais não fez do que retratar uma pessoa real, o diplomata irlandês Roger Cassement em «O Sonho do Celta». Ainda assim, é interessante reflectir e pôr à discussão determinadas indefinições que Vargas Llosa não parece ter resolvido justamente em «O Sonho do Celta»: Llosa, que assume a história na terceira pessoa, como narrador distante e paradoxalmente omnisciente, não hesita em usar termos como 'colonizado' ou 'descolonização' no bloco de texto em que segue o percurso de Cassement pelo ex-Congo Belga. Ora, parece evidente que os congoleses nunca viram o seu desejo de emancipação como 'descolonização' ou a ocupação do território como obra do poder colonial, mas tão somente como 'libertação nacional' ou 'nacionalista' perante 'o agressor branco'.Significa isto que o narrador (Vargas Llosa), ao não pesar este erro de percepção entre a forma como uns e outros vêem o mesmo fenómeno, acaba por colonizar a sua própria narrativa ao produzir uma descrição irremediavelmente. Algo que o autor peruano decerto não preconiza. Ou estaremos errados? Pelo menos, uma coisa é certa: ele, Vargas Llosa, acaba por cair na armadilha. Tal como o cineasta francês Jean-Luc Godard sempre defendeu, antes de se contar uma história, é preciso vivê-la primeiro. Tentar saltar este princípio resulta sempre mal: e, não obstante a mestria com Vargas Llosa conduz a sua narrativa, no que diz respeito ao ex-Congo belga, falha redondamente o alvo.


publicado por Revista Literatas às 03:55 | link | comentar

Tânia Tomé – o desabrochar de um canto poético

Ricardo Riso - Brasil

Nas literaturas africanas de língua portuguesa sempre houve discrepância entre a quantidade de vozes femininas atuando nas letras. No caso de Moçambique, dois nomes do período colonial durante o século XX foram de enorme relevância, falamos de Noémia de Sousa e Glória de Sant’Anna. Apesar desses dois nomes históricos, veio a independência do país em 1975 e as décadas de 1980 e 1990, mas poucos nomes femininos despontaram no panorama literário moçambicano, apesar do sucesso da prosa de Paulina Chiziane para além das fronteiras da nação.
Entretanto, onde se encontra a poesia moçambicana de autoria feminina do pós-independência, mais precisamente da virada do século XX para o XXI? Em longo artigo sobre a poesia moçambicana contemporânea, a ensaísta brasileira Carmen Lucia Tindó Secco fez as seguintes considerações:
Ao tecermos o perfil da poesia moçambicana contemporânea, detectamos uma ausência quase completa de mulheres-poetas. Ecoam ainda vozes antigas: algumas questionadas, em determinados aspectos, como a de Noémia de Sousa (...) e outras reverenciadas, entre as quais a de Glória de Sant’Anna. (...) Clotilde Silva (...) é pouco conhecida fora de Moçambique. Concluímos, assim, que, de modo geral, na produção lírica da pós-independência, não há, por enquanto, como já se delineia com visibilidade na ficção, com Paulina Chiziane, Lília Momplé e Lina Magaia, uma significativa dicção ‘no feminino’. Na poesia, o grito de ‘ser mulher’ ainda é o de Noémia de Sousa, de Glória de Sant’Anna. (SECCO, p. 299-300)
Os pertinentes comentários de Tindó Secco são confirmados quando nos deparamos com a relação de títulos publicados na edição comemorativa de 25 anos da Associação dos Escritores Moçambicanos, de 2007. Nela, constatamos a presença dos nomes poéticos consagrados no passado como Noémia de Sousa e novas vozes, casos de Clotilde Silva, Isa Manhinque, Rinkel e Sónia Sulthuane. Ou seja, é realmente tímida a presença de poetisas com a estampa do livro.
Felizmente, uma novíssima voz feminina moçambicana revelou-se neste último decênio. A consagrada cantora e declamadora Tânia Tomé, nascida em Maputo (1981), lança em 2008 o seu livro de estreia em poesia, “Agarra-me o sol por trás”, que, em 2010, ganha uma edição brasileira, agora intitulada “Agarra-me o sol por trás (e outros escritos & melodias)”, organização e prefácio de Floriano Peixoto, ilustrações de Eduardo Eloy, textos críticos de António Cabrita e Francisco Manjate, e uma entrevista da poetisa ao organizador. Trata-se de uma caprichada edição da editora paulista Escrituras, inserida na coleção Ponte Velha, que publicou anteriormente “O osso côncavo e outros poemas”, antologia poética de Luís Carlos Patraquim, “Lisbon Blues seguido de Desarmonia”, de José Luiz Tavares, e “A cabeça calva de Deus”, de Corsino Fortes. Os dois últimos são poetas cabo-verdianos.
A poesia de Tânia Tomé desvela uma nova dicção erótica prenhe em sinestesia, em que a metapoética se torna presente em uma linguagem que mostra o árduo e doloroso trabalho de sua tessitura poética, como em “Poema Impossível”: “Meu corpo impossível/ não me comas inteiro/ o possível poema/ que me subsiste/ deixa/ que deságue,/ que no abrigo/ os seus pedaços/ façam sentido./ Porque aí/ onde mais me dói escrever/ reside a alma.” (TOMÉ, p. 2010, p. 40). Desejo ininterrupto de entrega ao amor: “Não me salves, selva-me” (idem, ibidem, p. 17) e erotização moçambicanamente índica atravessando o jazzístico som do corpo do sujeito lírico: “E tu comigo, cá dentro, lá fora/ amando-me na medida do ritmo/ de um jazz cálido frenético./ Abraço do Índico, o piano/ atravessa as fronteiras que nos distam,/ recria o sopro do teu sax/ no meu corpo” (idem, ibidem, p. 48). Poesia que desabrocha um novo cântico, um novo ser a descobrir: “e não me perguntes/ quem é esta mulher/ que cresce comigo/ nas raízes profundas/ da flor do meu corpo” (idem, ibidem, p. 30).
Viagem ao âmago do ser, a poesia brota de uma vontade visceral e insana ao lapidar o “osso das palavras/ (...) uma asa cede-me a loucura/ e a noite me engole nesse desespero alucinante” (idem, ibidem, p. 13). Força criativa erotizando a linguagem, “despindo os versos um a um no centro deste poema” (idem, ibidem, p. 15), a nudez descontrolada do sujeito lírio manifesta-se na ânsia voraz de escrever, “e há um desejo insano de desfigurar a branca página” (idem, ibidem, p. 15).
Insanidade que conduzirá o sujeito lírico para se desprender da matéria à procura dos elementos do ar, signo da liberdade, da transcendência, é a poesia na busca da ampliação dos sentidos do verbo poético e surge a indagação: “Mas em que lugar da asa/ a palavra poderia ser mais bela?” (idem, ibidem, p. 41). Entretanto, não há resposta, há inquietação, há a incessante carpintaria da palavra e “o voo/ vai completamente fora/ da asa” (idem, ibidem, p. 26) para dizer o indizível. As palavras, tais quais as conhecemos, não cabem mais em seu discurso, por isso o uso de neologismos (cantoema, reflesou, amortradoxo, showesia) tenta suprir a necessidade do sujeito lírico. Sobre o sentido das palavras no poema, Octávio Paz afirma que:
“um poema que não lutasse contra a natureza das palavras, obrigando-as a ir mais além de si mesmas e de seus significados relativos, um poema que não tentasse fazê-las dizer o indizível, permaneceria uma simples manipulação verbal. O que caracteriza o poema é sua necessária dependência da palavra como sua luta por transcendê-la. (PAZ, 1972, p. 52)
E é na tentativa de expressar o indizível que as palavras transcendem imagens inusitadas em metáforas insólitas e impactantes, típicas do surrealismo, reveladas na veemência do poema “Abismo sol adentro”: “Agarra-me/ o sol/ por trás.// Escuta no vento/ a tua mão/ secreta” (TOMÉ, p. 2010, p. 19).
Em depoimento constante no livro, Tânia Tomé afirma que “a música influencia muito na minha poesia, não só nas palavras, mas na escolha das palavras que vêm a seguir, é tudo uma questão musical, é um processo muito natural” (idem, ibidem, p. 107). Seu sujeito lírico procura unir a música e a poesia para cantar a sua terra moçambicana: “Um cântico inteiro em abraços de terra nos lábios/ o poema que ainda irei escrever/ marrabentando-me/ urgente” (idem, ibidem, p. 63); no envolvimento com o seu chão e na valorização dos aspectos culturais tradicionais da dança, da música e seus instrumentos: “Na gala-gala percorrendo-me o tronco/ lentamente/ no toque das timbilas nas mãos,/ ecoando cântico chamamento dos tambores/ E no embrião dos mpipis/ mergulhados nas sílabas das cores deste sangue” (idem, ibidem, p. 55).
Pertencimento ao país que faz recordar o poeta maior José Craveirinha e o seu célebre poema “Hino à minha terra”, amor à terra que é renovado por essa jovem poetisa com o canto intitulado “Meu Moçambique”: “Eu sei-me Moçambique,/ no cume das árvores, na sede incontinente/ da minha falange, do Rovuma ao Incomati,/ no xigubo terrestre dos pés descalços/ e em todos os tambores que surdem/ das mãos coloridas nos braços em chaga” (idem, ibidem, p. 47).
“Escrevendo muhipiti/ no surrealismo do Índico” (idem, ibidem, p. 69), versa o sujeito lírico. Para além do surrealismo por vezes visceral como o de Craveirinha, encontramos ressonâncias de outros grandes poetas moçambicanos, ora nos cantos à ilha de Moçambique e referências ao Índico a recordar Rui Knopfli, ora na lírica erótica e nas citações aos elementos da natureza como o ar e a água de Eduardo White e Luís Carlos Patraquim.
Na confluência das artes que a poesia de Tânia Tomé desvela um mundo de letras sonoras, de um erotismo exacerbado e de uma entrega violenta para ressemantizar a palavra. Em suas metáforas dissonantes e viscerais, com poemas que arriscam e transmitem a inquietação de uma poetisa que procura tirar da inércia os sentidos desgastados do verbo, este “Agarra-me o sol por trás (e outros escritos & melodias)” de Tânia Tomé surge como promessa de uma voz feminina que veio para ficar na poesia moçambicana contemporânea.
 ________________________________
BIBLIOGRAFIA:
ASSOCIAÇÃO DOS ESCRITORES MOÇAMBICANOS. Memorial 25 anos. AEMO, 2007.
PAZ, Octavio. A consagração do instante. In: Signos em Rotação. São Paulo: Perspectiva, 1972.
SECCO, Carmen Lucia Tindó. Paisagens, memórias e sonhos na poesia moçambicana contemporânea. In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003. pp. 280-306
TOMÉ, Tânia. Agarra-me o sol por trás (e outros escritos & melodias). São Paulo: Escrituras Editora, 2010.
publicado por Revista Literatas às 03:52 | link | comentar

Arco – flechas…

Celso Folege - Maputo


Involuntariamente o título causou susto!
Será alguma guerra?
É mais uma de " n " batalhas
Em que flechas são poderosas armas?


Não!Hoje são poderosas estrofes, rimas
Não! Aqui as vitimas não são físicas
Os alvos não são específicos
Aqui as vitimas são aleatórias
Os danos, nem sempre catastróficos
dependem do grau de cognição
dos destinatários
os alvos são todos racionais
Meus com-planetários 

Aqui não há cessar – fogo
Porém, há  um contágio de fogo
Para atingir até os mais carenciados
Aqui as tácticas de combates
São excertos de todos poetas citados
Todos poemas publicados
Todas obras – flores
Onde outros poetas sugam polém
Como se abelhas fossem
  
A poesia, arco e flechas
Arco permanece na alma do poeta
Flechas são versos – balas perdidas
A elas todos somos potenciais vulneráveis
Pois temos uma infinidade de inarráveis
anomalias psíquicas, fendas comportamentais
Aqui não há  excepções, em becos ou avenidas
Minguamos desses golpes, como mendigos da gorjeta

E então! O que quer o poeta?
Conseguirá  ele moldar o planeta?
Se essa for a sua utópica meta? 

Não, o poeta não irá moldar o planeta
Seus escritos são delegados dessa missão
O poeta é  apenas a caneta
Instrumento sólido e variável
Importa mais o conteúdo
Que é  a força motriz
Para arrancar cada anomalia
Pela sua basilar raiz. 

publicado por Revista Literatas às 03:47 | link | comentar

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