Segunda-feira, 16.05.11

PETIÇÃO PÚBLICA “Manter a onda curta RTP Internacional RDP Internacional”



À REVISTA DA LITERATURA MOÇAMBICANA,
                                     
C/ PEDIDO DE DIVULGAÇÃO E ADESÃO:

JÁ COM MAIS DE 600 SUBSCRITORES, CIRCULA VIA INTERNET A PETIÇÃO PÚBLICA “Manter a onda curta RTP Internacional RDP Internacional”, A QUAL VISA IMPEDIR QUE MUITA GENTE EM TODO O MUNDO DEIXE DE OUVIR A RDP (RADIODIFUSÃO PORTUGUESA) POR ESSE DE GRANDE ALCANCE QUE É A ONDA CURTA.

DISPONÍVEL ATRAVÉS DO SITE www.peticaopublica.com, ALGUNS ADERENTES À PETIÇÃO JUNTAM ARGUMENTOS CONTRA A SUSPENSÃO DO USO DESSE MEIO, PROPOSTA AO GOVERNO PELA ADMINISTRAÇÃO DA RTP – RÁDIO E TELEVISÃO DE PORTUGAL.

A PETIÇÃO, QUE COM 5 MIL ASSINATURAS SERÁ ENTREGUE AO PARLAMENTO PARA SER DEBATIDA E VOTADA, FOI LANÇADA POR OUVINTES DA RDP INTERNACIONAL.

PARALELAMENTE, ESTÁ DISPONÍVEL UM FORUM DE DEBATE, ATRAVÉS DO QUAL OS CIBERNAUTAS LEMBRAM HAVER LARGOS MILHARES DE PESSOAS QUE SÓ DISPÔEM DA ONDA CURTA COMO FORMA DE OUVIREM A RDP POR ESSE MUNDO FORA.

ALÉM DE CAMIONISTAS E TRIPULAÇÕES E PASSAGEIROS DE BARCOS (DE PESCA, TURISMO E RECREIO) SÃO AÍ REFERIDOS HABITANTES DE LOCAIS ONDE AS OUTRAS TECNOLOGIAS NÃO CHEGAM OU SÃO DE CUSTO ELEVADÍSSIMO (COMO EM QUASE TODA A ÁFRICA E EM GRANDE PARTE DA ÁSIA E DA AMÉRICA LATINA).

TECNOLOGIAS COMO A INTERNET, OS SATÉLITES E AS REDES DE TV POR CABO FORAM UM DOS ARGUMENTOS PARA A RTP PROPÔR O FIM DAS EMISSÕES DE RÁDIO POR ONDA CURTA.

O DEBATE ON-LINE SOBRE O ASSUNTO ESTÁ ACESSÍVEL PELO ENDEREÇO: www.forum.ondasdaradio.com/nacionais/emissao-em-onda-curta-da-rdp-internacional

AGRADEÇO A ATENÇÃO DA REVISTA DA LITERATURA MOÇAMBICANA.

 Carta enviada por Samuel Castro
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publicado por Revista Literatas às 06:31 | link | comentar

Carta aberta de estudante denuncia perversidades do regime político da Guiné Equatorial


Facultado por Victor Eustaquio - Lisboa
 
Carta aberta de jovem estudante denuncia perversidades do regime político da Guiné Equatorial: um exemplo de coragem vindo de «dentro»

Cesar Augusto Iyanda Mitogo é um jovem guineense, estudante de Direito na Universidade Nacional da Guiné Equatorial (GE), que se arriscou a falar abertamente, numa carta pública escrita e assinada «dentro» do território nacional, sobre o que se passa no País que vai receber em breve a Cimeira de Chefes de Estado da União Africana.
O texto está a causar grande impacto na GE mas merece mais. Para quem se interessa por questões como os Direitos Humanos, a União Africana ou tão-somentea a Guiné Equatorial, um exemplo de coragem que deve ser conhecido «fora« da GE.
Agradeço a todos aqueles que me fizeram chegar este documento, dando-me a oportunidade de também poder participar na divulgação desta carta tão ímpar no contexto africano.

“Como é a realidade do país que receberá os Chefes de Estado africanos na reunião da União Africana”

 Carta de Cesar Augusto Iyanda Mitogo

 Malabo, 12 de Maio de 2011
 Desde que ao Presidente da Guiné Equatorial, o General Obiang Nguema Mbasogo, lhe deu para ter mais cargos e poderes do que os que já tinha – a saber, Chefe de Estado, presidente fundador do Partido Democrático da Guiné Equatorial, Primeiro Magistrado da Nação, Tenente General do Exército, primeiro desportista da nação, etc., etc. – nós, os que sabemos que a sua forma de entender a governabilidade se ajusta aos típicos estereótipos bantu e, mais particularmente, Fang, soubemos que não estaria contente por ter apenas as funções atrás mencionadas, mas que iria tentar escalar o mais alto que consiga para mostrar aos súbditos do país que, por desgraça, lhe tocou governar com um poder que realmente vem de Deus, como disse um jornalista uma vez na única estação de televisão. Nós, os que entendemos o carácter do típico Nkukuma Ayong (chefe de tribo), um forte carácter egocêntrico, super poderoso e autoritário, soubemos que as suas intenções de encher-se de mais coroas iriam em crescendo.
Uma vez, neste país onde todos nos conhecemos, mantive uma conversa com uma pessoa que conhece e vive o dia-a-dia do ambiente do General Obiang. Essa pessoa dizia-me, com tom arrogante, que, dentro da Comunidade Económica e Monetária da África Central (CEMAC), após a morte do Presidente do Gabão, Omar Bongo, havia uma luta pelo lugar do chefe de todos os chefes dentro da comunidade dos países da África Central, e que, segundo a delegação guinéu-equatoriana, deveria ser, indubitavelmente, Obiang, porque nenhum outro presidente tinha mais experiência em assuntos de gestão de um Estado.
Visto tudo o anteriormente mencionado, não havia nenhuma dúvida de que Obiang treparia para a ascensão a Presidente da União Africana e que estaria disposto a desperdiçar quanto dinheiro fosse possível para fazer do seu sonho uma realidade, em detrimento da sua população, que mantém na miséria, ignorância e na mais absoluta falta de liberdades.
Numa das suas últimas viagens aos Estados Unidos, em Houston, Texas, num encontro que manteve com empresários do sector petrolífero, transmitido, aquando do seu regresso, pela Televisão Guiné Equatorial, não duvidou em mencionar orgulhosamente que, graças aos seus irmãos africanos, havia sido eleito Presidente da União Africana. Ele vai e faz tal declaração no primeiro país do mundo, milhões de anos-luz à frente dele em termos de formação e com grandes conhecedores da actualidade africana. Como se estivesse no seu povo, Akokam, falando com crianças de quatro anos.    
Então, os que realmente conhecem a Guiné Equatorial, deveriam conhecer a situação actual deste país africano, ao escutarem os meios de comunicação quando todos os Chefes de Estado africanos se deslocarem ali para assistir à Cimeira da União Africana.
À partida, é chover no molhado, porque basta a Wikipedia para se poder conhecer a situação desastrosa do povo da República da Guiné Equatorial. Mas atrevo-me a fazer finca-pé da situação geral da Guiné Equatorial quando receber os Chefes de Estado africanos na cimeira da União Africana.
Senhores Chefes de Estado:
Muita desta gente que irá ao aeroporto para os receber não estará ali de vontade própria. Além disso, estarão muitas horas ali sem comer, sob pena de prisão se não se apresentassem a esse lugar.
No vosso caminho entre o aeroporto e Sipopo, constatareis que, na nova auto-estrada que acabam de construir, há duas desmesuradas praças com fontes. Essas fontes só jorrarão água enquanto por lá passardes, porque, imediatamente depois da vossa saída, nunca mais voltará a sair água dessas fontes. Na mesma auto-estrada, vereis árvores plantadas com um cariz decorativo. Estas árvores plantaram-se a dois meses da vossa chegada e bastaria um empurrão do meu filho de cinco anos para as derrubar com muita facilidade, porque neste país as coisas se fazem assim, precipitada e desorganizadamente.  
Sem vontade de sair desta auto-estrada, passareis perto da famosa prisão de Guantánamo, onde, no momento da vossa passagem, existirão mais de cinquenta cidadãos e cidadãs nacionais e estrangeiros (militantes de partidos políticos, sacerdotes, trabalhadores que quiseram pedir mais dignidade numa empresa cujo dono é uma pessoa influente do regime, moças que se negaram a sair com um general, algum bêbedo que quis falar de temas políticos porque ganhou coragem para isso depois de duas cervejas, etc., etc.), todos eles detidos arbitrariamente e em condições de saúde lamentáveis, submetidos à tortura e a tratos inumanos e degradantes, porque assim funciona este país e a liberdade da sua gente vale muito pouco. As prisões arbitrárias são uma moeda corrente e legal. Exactamente onde hoje existe esta auto-estrada, havia guinéu-equatorianos com porções de terreno que lhes foram arrebatadas sem a devolução de um só franco por parte do Governo. Não mencionando sequer as casas que aí estavam construídas e os desalojamentos forçados a que foram submetidos os que ali moravam, sem pagamento nem justificação alguma, porque os desalojamentos forçados ocorrem na Guiné Equatorial todos os dias.
Porque acredito que esta auto-estrada será centro de atenções, quero detalhar o melhor que possa sobre cada uma das coisas que tereis a oportunidade de ver e visitar.
Passareis por uma zona residencial chamada Boa Esperança. Essas casas foram construídas pelo Governo, mas repartem-se de modo arbitrário. Para conseguir uma, ter-se-á de conhecer a alguém dentro do sistema governamental, alguém influente, porque um cidadão comum como eu não pode ter acesso a elas. Estas mesmas casas consomem a electricidade de uma pequena estação de geração de energia eléctrica, porque em Malabo não há luz. A empresa que gere a luz de Malabo mostra-se incompetente há muito. São muitos os bairros que passam mais de três meses na obscuridade, naquele que é o terceiro país produtor de petróleo de África.  
A Universidade Nacional da Guiné Equatorial é um puro refúgio para nós, filhos de pais pobres com vontade de seguir os estudos e animados por ter uma licenciatura. Os professores não são qualificados e muitos são companheiros que acabaram a licenciatura no ano passado. Temos de levar assentos de uma sala para outra, porque há demasiada procura estudantil e as salas não chegam para todos. O próprio reitor não tem um perfil de investigador nem estudos académicos dignos da sua posição. Não tem publicado qualquer trabalho científico nem um artigo escrito numa revista ou numa página, como este texto que eu escrevo agora.
O movimento das pessoas está restringido. Levamos mais de sete meses com sérias dificuldades para nos movermos de Malabo a Bata e vice-versa e com milhares e milhares de barreiras policiais dentro do país.
Falta de tudo. Água potável. As pessoas têm de formar filas até cem metros apenas para conseguir pão. Não há salas de cinema nem de ócio. O tráfico de droga é quase legal. A situação da educação está na pior.
Poderia encher um livro inteiro, mas, para reservar a vossa energia, vou concluir por aqui. Esta é a lamentável situação na que está a Guiné Equatorial no momento da chegada dos Chefes de Estado para a cimeira da União Africana. E esqueci-me de mencionar que, se passardes pelo meu bairro, New Bili, sabereis exactamente do que vos falo, mas duvido muito que vos levem aí.
Cesar Augusto Iyanda Mitogo
Terceiro ano de Direito
Universidade Nacional da Guiné Equatorial
(Tradução do original em espanhol “Cómo es la realidad del país al que vienen los jefes de estados africanos a la reunión de la Unión Africana”)
publicado por Revista Literatas às 06:08 | link | comentar

“O Regresso do morto”


Policarpo Mapengo – Opaís

A morte está presente na sua obra, não só quando o “morto regressa” no seu livro de estreia, onde até “Ngilina” – no conto “Ngilina Tu Vai Morrer” – encontra nela a fuga do sofrimento. Depois de “Amor de Baobá”, Suleiman Cassamo voltaria a rir-se da morte em “Palestra Para Um Morto”. Mesmo nessas “profundezas” conseguimos com este escritor olhar para um país que se reinventa nos livros.
 
Os mortos, quando regressam, dizem, trazem a cruz pesada da sua própria tumba dobrando-lhes a coluna. Porém, nunca ninguém os viu de regresso. Mas eis que este retorna, com uma pesada mala de chapa no lugar da cruz. Vem arrastando um par de botas sólidas, a poeira desenhando continentes nas gangas suadas, o olhar sem chama debaixo do capacete.
Fazíamos um mergulho profundo em “O Regresso do Morto”, o livro de estreia de Suleiman Cassamo, como se a querer acreditar que os mortos regressam mesmo que ninguém os tenha visto regressar. A crónica da morte podia até saltar do livro para a “vida real” de um país que precisava desesperadamente regressar à paz. Foi o que disse Cassamo quando, finalmente, nos encontrámos para uma entrevista que já vinha adiando havia dias. O livro foi escrito num período de crise. Quando as ruas, mesmos as que vinham da África do Sul, de onde regressava o “seu morto”, cheiravam à pólvora e à sangue. Podia ter sido essa a realidade que condicionou o livro. Se é que os mortos se cansam, devia estar muito cansado. Não era só aquele morto que estava cansado, era um país dilacerado que “precisava regressar à normalidade”, disse Cassamo na entrevista que deu ao “O País” e à “STV”.
A imagem que se cria quando se pensa em Suleiman Cassamo é de “O regresso do morto”. Estamos perante um escritor que se apresenta com uma construção dramática, se olharmos para a forma como regressa o “morto” do seu livro?
Gostaria de me colocar de fora, como quem pára de longe e olha para a palhota que acaba de construir. Ficar de fora e olhar para o livro como um simples leitor. Apesar da carga do título, a ideia de “o Regresso do Morto”, mais do que drama, é a outra forma de utopia, ao acalentar a esperança de ter de novo no nosso convívio os entes queridos que um dia nos deixaram. É também a exaltação do imaginário colectivo. No Sul de Moçambique, ao longo de quase um século, muitos homens foram com o trabalho migratório para a África do Sul. Muitos perderam a vida em acidentes nas minas, mas na terra de origem as pessoas sempre guardaram a vã esperança de vê-los regressar. Em termos de construção literária, há uma tensão muito grande, criada na base de recursos muito escassos, na das forças latentes da terra, uma prosa com muito sabor à terra. Como disse um dia um confrade, “O Regresso do Morto é o povo pela própria boca”. Passa pelo livro um hino à mulher, o livro canta a luta da mulher enquanto esteio da família, num contexto em que homens estão ou em passagem ou em movimento. O imaginário retratado no livro não é exclusivo a Moçambique, é, além de universal, eterno. Creio que são estas as razões que estão na base da empatia com a obra no país e também fora, com algumas traduções pelo meio, que fizeram a UNESCO nomeá-la como representativa do património literário universal”.

Mesmo assim, num momento de drama, não só do seu livro quando aparece, mas também do país, consegue trazer, com alguns detalhes, a descontracção e algum humor. Era preciso dar uma pitada de humor no tempo de crise?
De certa forma, sim. “O Regresso do Morto” é um povo que nunca perdeu a fé, um país que renasce das cinzas. É um apelo à memória, que triunfa sobre a destruição da guerra. É um novo ciclo, de um país que se reinventa.
Apesar de ter surgido com “Amor de Baobá”, parece haver uma tendência de se identificar Suleiman Cassamo com a morte. E, o seu outro livro, “Palestra para um Morto” parece vir confirmar essa criação imaginária social. Como é que olha para a morte?
A morte é um tema que ocupa, nas nossas cabeças, volume, massa e peso. Apesar de ser uma constante da vida, quanto menos se falar dela melhor. Mas num texto como “Palestra para Um Morto”, a morte é tratada com ironia, com arrogância, se quisermos. É um texto que diz: ”Morte, tu não és nada. És apenas o outro lado de uma fronteira escorregadia”. Aliás, a morte é até uma condição suprema, aquela em que os humanos estão livres de todas as mazelas, despojados de qualquer dor. A situação em que já pagamos todas as nossas dívidas. Por outro lado, aos mortos sobrevivem as paixões mais intensas, o amor incurável, o ódio implacável. E tem-se então todo o tempo do infinito para perseguir com afinco e cálculo as paixões que eram da vida. Os mortos não desarmam.
Nelson Saúte, em “os Habitantes da Memória”, pergunta a quase todos os seus entrevistados se o tempo da crise era fértil para a produção artística. Como podemos olhar para a nossa literatura no tempo de crise, refiro-me ao tempo de guerra e à produção que temos agora?
A literatura moçambicana nunca parou no seu processo de auto-construção. Aquele foi, sim, um tempo fértil. Apesar de privações de muita coisa, foi também o tempo que testemunhou o nascimento de uma nova vaga de escritores.   
Também temos nesse período um momento de ebulição, não sabemos se podemos caracterizá-lo como de revolução, mas foi o momento em que os espaços literários eram centros de debates. A tendência de evolução do país veio “matar” essa revolução literária?
Foi um ciclo que se cumpriu. A entrada do país para a economia de mercado, por exemplo, trouxe outro tipo de preocupações, outra forma de estar. Antes, era o fervor das tertúlias, o entusiasmo das brigadas literárias, o Msaho no Tunduru, mas também os saraus de poesia em muitos dos espaços que foram tomados, depois, pelas igrejas. A inauguração recente de casas de fé, feitas de raiz, é por isso de louvar, quando olhamos para a forma de como certas igrejas entraram no país. Os espaços literários, para além de centros de debate, são essenciais como espaços de experimentação para os mais jovens. É neles que surgem talentos, o reconhecimento pela selva literária.
Na questão anterior referíamo-nos a toda a conflitualidade que surgiu e que daria origem à geração Charrua. Temos hoje condições para essa construção ou surgem outras exigências que fazem com que o movimento literário siga um curso tranquilo e sem o debate que sempre moveu o mundo cultural?
O debate é salutar e creio que acontece ainda, mas com novos processos, talvez pouco perceptíveis. Mas o importante é a produção, que continua. Tanto por parte dos mais velhos, como dos mais novos. Os ciclos literários são longos. Só daqui a algum tempo podemos ver a qualidade do que se colheu. A crítica literária será sempre importante.

A nossa literatura foi construída com base na poesia, com enfoque para os nacionalistas e mais tarde os de poemas de combate. Mas também surge Suleiman e Ungulani com a ficção. Era, para vocês – e os outros, nos lembramos também de Mia Couto e, mais tarde, Paulina Chiziane – uma corrida em contra-corrente?

Não propriamente em contra-corrente. Essa emergência da prosa fez-se à sombra do trabalho daquela geração de poetas. Essa geração tinha o grito da revolta na ponta da caneta. A nossa geração, no lugar de contrariar, completou a anterior. O Ungulani, o Mia, o Marcelo, a Paulina, o Aldino Muianga, a própria Lília Momplé, e tantos outros, são de uma vaga de escritores que viveu com fervor uma época de pico, que se seguiu à independência do país. Uma geração que assistiu ao chamado “boom” da literatura angolana, a partir dos finais dos anos setenta. Um “boom” ao qual correspondeu, sem rivalidade, mas com os seu meios. Uma geração com preocupações estéticas muito altas, que encontrou na prosa com a força da sua expressão. Mais salutar ainda é que foi uma geração que teve a preocupação de ler. Alguns leram com entusiasmo os mestres do realismo mágico latino-americano. 

Concorda com alguns – aqui se destaca Aníbal Aleluia – que a prosa moçambicana chegou com a Charrua? Ou melhor, como é que se pode avaliar a geração Charrua na construção literária nacional?

A Charrua é um pouco fruto do que dissemos. Um momento não propriamente de ruptura, mas de grande conjuntura literária. Mas a prosa moçambicana já vinha de trás. Entre outros, com Luís Bernardo Honwana. “Nós Matámos o Cão Tinhoso” é um marco importante. Mas também houve outros, como Orlando Mendes, Albino Magaia e o próprio José Craveirinha, que, para além de poeta, era também bom prosador. A geração Charrua teve o seu papel, mas ela não é o início e não será, certamente, o fim do percurso.

 Voltamos novamente à questão da construção. Como é que se constrói “Charrua”? 

O grupo Charrua nasceu do fervor da época, da busca interior e de reinvenção do país literário. Um grupo de jovens juntava-se na AEMO em infindáveis tertúlias. Alguns dos mais velhos, como Rui Nogar, também “cumpliciaram” no processo. O que é notável é que, embora o grupo tenha servido de sugestão, foram díspares as vozes que saíram da “Charrua”. 
Podemos falar de demissão, sobretudo depois desse momento em que também chegou a ser secretário-geral da AEMO? parece-me que toda a geração seguiu outros caminhos e renunciou ao debate ou à intervenção cívica e social.
Essa geração, depois do período em que Pedro Chissano, Hélder Muteia e eu passámos pelo lugar de secretário-geral da AEMO, nunca abdicou, mas soube criar espaço para os mais novos.
É verdade que tivemos um tempo de grande intervenção. Por exemplo, com espaços de colaboração na imprensa. Muita dessa colaboração fechou, mas a intervenção social desse grupo continua sob outras formas.
publicado por Revista Literatas às 04:56 | link | comentar

Manifesto do reencantamento social


Jorge de Oliveira - O País

1. Carlos Serra, historiador, consultor, um dos gurus da sociologia moçambicana, acrescentou à sua actividade editorial, antiga e relativamente extensa, este Ciências, Cientistas e Investigação (Manifesto do reencantamento social), ligado obviamente à ciência sociológica que nos rodeia, local e universal, recente e também mais antiga.
2. “A história foi durante séculos a dos reis, dos contos fantásticos, dos santos. Mas a partir do século XIX os historiadores impuseram uma outra disciplina, a de, na expressão clássica de Leopold von Ranke, escrever ‘o que aconteceu efectivamente’, princípio positivista claro e de grande fidelidade às ciências hard com a sua aposta na existência de um mundo real objectivo e cognoscível, na prova empírica e na neutralidade do historiador.”
3. O livro leva-nos à reflexão sobre questões sociais, antropológicas, sendo de destacar a facilidade com que se criam igrejas, partidos, associações, o que, sendo bom, porque demonstra a liberdade dos cidadãos se juntarem, reunirem, agruparem, tem o amargo de ser um factor que prova, pelo menos, três coisas: que ainda existe uma faixa elevada de cidadãos espiritual e intelectualmente fracos (vulneráveis, com espaço, em seus cérebros, vazio e virgem para ser explorado por charlatões); que o país pode estar infestado de uma gritante ausência de ideias e convicções (faz-se sempre do mesmo, combate ao sida, estudo do estudo, consultoria da consultoria); e que essas formas de aglomerado são um emprego, uma forma de ganhar a vida (e não um local em que os membros se juntam porque, realmente, de verdade, têm um ideal, pretendem bater-se por um princípio (partidos políticos criados como se fossem cogumelos, por causa do trust fund, pode ser um exemplo).
4. “Num país habituado a obedecer desde o colonialismo, a fragmentação da unicidade de comando pode ora levar as pessoas para um dos lados em conflito pela ‘propriedade’ de dar ordens (frequentemente quando a isso compelidas pela força das circunstâncias de sobrevivência), ora levá-las a não tomar partido, a ‘desobedecer’ a ambos (no caso vertente) os lado. O ganho e o entumescimento de uma espécie de cultura histórica do desacordo é, quanto a nós, evidente no país”.
5. Neste manual de Sociologia, praticamente apimentado com linhas por que se cose, também, a filosofia  e a história, é feita, ao de leve, uma incursão a um processo eleitoral autárquico e ao significado que os antepassados podem ter (e ainda têm) nas nossas comunidades.
6. O autor faz mesmo um apelo para que, chegados ao estágio actual de evolução, todos os cidadãos do mundo tenham por obrigação lutar contra as desigualdades (a favor do que chama de deserdados), por uma justiça social mais alargada. Parece uma luta inglória, perdida, utópica, mas ele apela a ter as suas convicções.
7. “Na verdade, o que nós, muitas vezes, analisamos no outro é o que somos, o que não somos, o que não pudemos ser, o que nós gostaríamos de ser ou não, o que amamos, o que odiamos. O nosso ponto de vista sobre os outros é um ponto de vista sobre nós tornado interrogação ou exercício face ao ponto de vista que também é do outro, produzido com ternura ou ódio ou ambas as coisas, arremessado ao outro, a quem carnivorizamos fazendo o nosso ponto de vista parecer o dele.”
8. Nota-se com interesse como Carlos Serra aborda com propriedade o hábito que prevalece, de uma ponta à outra do nosso país, de justificar fenómenos naturais através do recurso a imaginários poderes extra-terrestres; ele fornece com alguma felicidade uma válida explicação para as explicações que muitas pessoas (infelizmente) ainda seguem como forma de enfrentar eventos perfeitamente justificáveis pela lógica e ciência – por exemplo, o assassinato de pessoas que pretendiam evitar mortes, derivados da cólera, acusadas de serem agentes homicidas, esquecendo-se, de forma brutal e inaceitável, a própria doença e suas origens.
9. “A ‘doutorice’ é tão devastadora quanto a malária e a cólera. Ela bloqueia, enfatua, descerebraliza, fossiliza. Quantos ‘doutores’ não envelhecem contemplando carinhosamente, ano após ano, o seu certificado embalsamado, folheando a sua querida tese (à qual se limitam a acrescentar notas de rodapé até ao fim da vida) e indo periodicamente ao seminário ou congresso internacional onde apresentam um artigo que mais não é, uma vez mais, do que uma nota de rodapé da tese, a famosa, gloriosa e intransponível tese?”
10. Ganha-se algumas convicções, quando se chega ao fim da obra, e, entre os mais salientes, está a necessidade de se questionar, questionar, questionar sempre tudo o que nos rodeia – o desenvolvimento vem das diferenças, do espalhar dos benefícios, do diminuir dos pobres.
11. A viagem pelo texto que este cientista escreveu sobre os seus colegas, a ciência que os une e a investigação que realizam, é gratificante quanto mais não seja até para chegarmos ao fim com a lição bem estudada e podermos matar o mestre com o seu próprio veneno, discordando de grande parte das suas premissas.
publicado por Revista Literatas às 04:51 | link | comentar

No Silêncio do Mundo


Mauro Brito – Maputo

Vi minha sombra flutuar no fundo do mundo
Onde nem sequer havia pedaços de verdade
Nesse escuro que cala mil silêncios
Busquei todas matemáticas, mas equação da vida não a resolvi

Pois te digo sem máculas, com todas as letras
Que bebi todo canhú que dormira no  pote
E agora o que?
Não sou culpado pelo mundo de agora
Sim talvez da minha vida me culpo ou por não ter morrido

Escalei todas as montanhas da vida, entre sorrisos e lágrimas, e nada


Nem encontrei essa tal verdade de que se fala por aí, órfã do mundo


O que dizem por aí rapaziada?


E me divido em mil ventres que não pariram nem uma verdade


Arrumo-me em panelas de barro e atravesso mil pontes de sucesso


Viajo em mil palavras de sonhos e desejos frenéticos 





Alcanço esse silêncio de palavras que apenas é verdade sem fronteiras


Silêncio do mundo onde a verdade tenta viver em harmonia
publicado por Revista Literatas às 04:48 | link | comentar

O choro das almas


Nonia Issac – Songo – em Tete

Ainda em choque com a morte,


Cantam o choro,


No além do mundo que não conhece





O choro de estar perdido.


Sem a Maria sua amada


Sem a sua casa,


Sem o café da manha


Ao raiar do dia.

Não conheço esse mundo…
Onde esta a Clara minha filha,
Minha princesa?

Esse silêncio,
Assustador me assombra,
Esse mundo, não meu….
publicado por Revista Literatas às 04:43 | link | comentar

Sonhos Molhados


Peter Pedro Pierre – Maputo

Deixaste em meu dispor a beleza natural


Do teu corpo cabal


Vieste em minha direcção tão voraz


Com gestos de mulher audaz





Totalmente inserta de pejo


Roubaste-me um beijo


Que despiu-me o pudor,


Despertou em mim o desejo,


Veio o borbulhar do calor





Minha língua percorreu teu corpo curvilíneo


Conchas, ancas, quadril, traseiro.


Teu corpo inteiro


Exalava a tesão


Suplicando para ser devorado





Envolve-te em meus braços.


Imaginei-te de bruços.


Como uma flor


Abriste as tuas pétalas


Ajuste-me entre elas


Atolado o meu pé na tua carne.





Senti-te e senti-me dentro de ti


Estavas toda melada,


Te entregaste a mim e eu a ti.


Nossos corpos fundiram-se,


Nossos rostos com expressões de prazer


Respiração ofegante,


Nos meus ouvidos teu gemido picante





Mordiscaste meu pescoço


Levaste-me ao delírio


Meu compasso de vai e vem acelerou.


Contorceste teu corpo revirando os olhos.


Cravaste as unhas em minhas costas


Desbravando-as como uma charrua


Desbravando aterra





Juntos, chegamos ao clímax


Atingindo um orgasmo intenso


Abraçamo-nos forte e urramos


Ahh, ahh, ahh


Queríamos mais


Mas o despertador tocou.
publicado por Revista Literatas às 04:30 | link | comentar

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