Domingo, 20.02.11

Homenagem ao poeta-mor que nasceu três vezes

Por Eduardo Quive

Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) reservou a noite da última sexta-feira para uma conversa sobre o poeta-mor, até então, o maior da poesia em Moçambique e o primeiro autor africano galardoado com o prémio Camões em 1991.

José Craveirinha, Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo ou Abílio Cossa, seja como for, o poeta da luta, nasceu várias vezes como o diz na sua autobiografia.
“Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato…
A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros.
Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão. E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.
Nasci ainda outra vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.
Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação. Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta. Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.” Leia Mais...
Para falar do poeta, Gilberto Matusse, não poupou palavras e argumentos, tendo o considerado, um homem que nunca se sentia satisfeito com o seu próprio trabalho, sempre acreditou que podia ser melhor.
A sua poesia objectiva, marca a diferença e a controversa do Craveirinha, quebrando todas as regras, onde a geralmente, a poesia é conhecida como a seguidora da subjectividade, sendo objectiva a narrativa.
Outros poetas, até chegaram a falar do Amim Nordine (Poeta, declamador e um dos maiores jornalistas culturais de Moçambique nos últimos tempos, falecido no dia cinco de Fevereiro do corrente ano e enterrado no mesmo dia no cemitério de Lhanguene, sem que o país soubesse do acontecimento), outro homem que se dizia operário da poesia.
Foi dito ainda naquela noite, que as pessoas que sentem a liberdade têm as palavras, exemplo de Amim Nordine e José Craveirinha.
O evento contou ainda com a presença dos familiares do poeta, Casa Museu Craveirinha, entre outros artistas.

Livros publicados
Em termos bibliográficos, o escritor fora um dos escritores moçambicanos, com mais livros lançados, completando seis edições muitas vezes reeditadas, como o caso do Nkaringana wa Nkaringana (era uma vez), Xigubo (batuque) e Maria, para além de ter tido as suas obras traduzidas para várias línguas extrangeiras como Francês, Italiano e Russo, nestas duas últimas línguas, lançou Cantico a un dio di Catrame e Izbranoe.
Portanto, falar de Craveirinha, é falar de um negro “mulato” que tinha muita expressão na literatura internacional, e um ícone da literatura em Moçambique e no continente negro. Homem que inspira a juventude actual e com certeza, com a imortalização do seu legado, muitas gerações vão se espelhar neste operário da poesia, analfabeto e autodidacta.

Prémios arrecadados

Quanto a isso, se pode dizer que José Craveirinha foi um literata com mérito reconhecido e exibidamente explícito na sociedade.
Primeiro venceu o Prémio Cidade de Lourenço Marques em 1959, de seguida mereceu o Prémio Reinaldo Ferreira do Centro de Arte e Cultura da Beira em 1961, buscou o Prémio de Ensaio do Centro de Arte e Cultura da Beira 1961, seguiu com o Prémio Alexandre Dáskalos da Casa dos Estudantes do Império, Lisboa, Portugal no ano seguinte, Prémio Nacional de Poesia de Itália em 1975, Prémio Lotus da Associação de Escritores Afro-Asiáticos em 1983, Medalha Nachingwea do Governo de Moçambique em 1985, Medalha de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Brasil em 1987 e Prémio Camões em 1991.
Craveirinha, foi portanto, um colecionador de títulos e símbulos com niguém ainda, na estória da arte de leitura e escrita em Moçambique, posicionando entre os melhores de sempre em África, para além de ter ganho, igualmente, o destaque de ser o melhor da última década, mesmo ter morrido nos seus princípios, isto é a seis de Fevereiro de 2003.

Craveirinha de Mafalala
Tal como muitos heróis e homens de grande prestígio na história moçambicana, José Craveirinha, era pobre, e sobrevivente da “Babilónia”, nome que se dá a zonas pobres.
Neste bairro mítico, nasceu e viveu para além de Craveirinha, expoente máximo da poesia Moçambicana. Neste bairro nasceu e aprendeu a jogar futebol, Eusébio da Silva Ferreira, exímio ponta de lança que actuou no Benfica de Portugal bem como na selecção de Portugal. Samora Machel, Joaquim Chissano e Pascoal Mucumbi, Ex-presidentes e primeiro-ministro de Moçambique, respectivamente, viveram algum tempo neste Bairro mítico dos arredores da cidade de Maputo.

Breve biografia
Craveirinha (Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003) é considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa.
Como jornalista, colaborou nos periódicos moçambicanos O Brado Africano, Notícias, Tribuna, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana.
Utilizou os seguintes pseudónimos: Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa. Foi presidente da Associação Africana na década de 1950.
Esteve preso entre 1965 e 1969 por fazer parte de uma célula da 4.ª Região Político-Militar da Frelimo.
Primeiro Presidente da Mesa da Assembleia-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, entre 1982 e 1987.
Craveirinha, era homenageado no âmbito da data da sua morte, que se assinalou, no pretérito seis de Fevereiro.
publicado por Revista Literatas às 07:20 | link | comentar | ver comentários (1)

“Recordações da vovô Marta” reveladas ao público

Por Eduardo Quive

Contadas pelas mãos da Lina Magaia, as “Recordações da vovô Marta” é um livro que resultou de uma conversa entre Marta Mbocota Guebuza e a autora num ambiente informal de troca de conhecimentos e recordações sobre um tempo que passou mas que a vida não levou.
Vovô Marta como orgulhosamente se assume, completa neste 2011, 100 anos de idade, e tal como garantiu o seu filho, Armando Emílio Guebuza, o Presidente da República de Moçambique, a sua lucidez continua inquestionável, aliás, nota-se isso pelas histórias que contou a Lina Magaia e esta, por sua vez, escreveu-as para outras gerações. Leia Mais...
A cerimónia de lançamento do livro “Recordações da vovô Marta” que contou com a presença do Presidente Guebuza e esposa, Maria da Luz, entre outras proeminentes figuras da vida política, económica e social do país, contou com uma especial apresentação de Nelson Saúte, que considera Marta Mbocota, a avô de todos e disse ainda “parabéns vovô Marta pela demanda pelo passado, pela vida e pelo futuro.”
Desde a sua infância passada quase toda ela em Maputo, o seu casamento, o nascimento dos filhos, a passagem por Nampula, o refúgio em Pessene, distrito da Moamba, entre outras memórias estão patentes nesta obra.
O pragmatismo e de generosidade, nascida em Chonguene, província de Gaza, a 11 de Setembro de 1911 e que, aos quatro anos de idade, órfã de pais, viu-se obrigada a viver  junto da família do tio, na então cidade de Lourenço Marques, mais concretamente em Ka Phulana (actual bairro da Polana Caniço).
Lina Magaia, por seu turno, confessou o gosto de conversar com as pessoas mais idosas e com elas percorrer, com olhos de ver, “os andares da sociedade moçambicana”.
Aliás, segundo referiu a escritora no acto do lançamento do livro, a sua vontade é produzir obras que narram histórias e vivências de pessoas mais antigas, sendo que, além da Vovó Marta, tem uma outra obra da Vovó Joana Tembe, mulher que em Janeiro passado completou 110 anos de idade.
Esta é a quarta obra de memórias editada pela JV Editores, sendo que as primeiras  relatam a história da luta de libertação nacional.
publicado por Revista Literatas às 06:43 | link | comentar

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