Beijo de Mulata¹

DE: Eduardo Quive - Maputo

Rumores corriam na minha boca, trancada pelos lábios que se molhavam aos lábios de uma menina que com migo fornicou.
Não beijara ninguém antes, aliás, soubera de alguém que Adão e Eva o fizeram, mas em forma de pecado, não era divino o fazer sem que Ele autorize - Dizem os divinos.

Ao mesmo que se passava uma tempestade de calotes, olhando atentamente na doçura que não sabia qual, sem que a aprovasse com os meus próprios aprovamentos.
O meu primeiro beijo…beijo de Mulata.
Era ela que vira aos meus sonhos. Que antes pensara que era de criancice, mas não era.
Era mais é, sonho dos pretos ao mesmo tempo, sabia-se que não se devia tocar na filha de cor branca, muito menos a dos Ferreiras.
Não se podia tocar, brincar, muito menos namorar as brancas “gostosas” namoradas por homens sexuados.
Ninguém. Menos eu. Embora não tenha conhecimento da historicidade das intrigas que em tempo desuniram a humanidade: homens e mulheres.
E era assim: apenas que se convivesse preto com preto. Contaram-me os antigos.
Mas não crescera com essas profecias. Aprendera que ninguém se podia  desigualar de alguém.
Todos éramos todos ou éramos ninguém.
Carla também era assim.
- Uma mulata misturada com negros?
- De onde é!!!?
- Nada de brincar com filhas de brancos!
Todos aconselhavam em jeito de ameaça.
Ninguém acostumara-se com uma branca que estivesse no meio de todos. Ninguém mesmo.
Nem eu me aproximara dela.
Mas Carla não era assim. Era uma branca com sangue de escravatura.
Que ninguém o duvidasse: estudava na escola de pretos pobres, que na maioria se apresentavam a escola esfarrapados e descalços; professores que batiam a todos, mesmo envermelhando a menina que se igualava à princesa Russa.
Não podia escapar do xibalo que os seus antepassados não tiveram.
Brincava com todos. Não se diferenciava dos Zé-ninguém nauseabundos.
Carla era como se fosse a escrava Isaura em si (escrava branca). Não desprezara nenhum preto se quer. Eu que o diga.
O problema mesmo… é que malta nós é que a tratávamos com uma deusice.
Todos os homens a desejavam.
Nenhum homem deixava de homem aos seus olhos.
Todos queríamos ser homens, incluindo a minha limitada masculinidade, que quando submetida a ambições sexuais se pode duvidar.
Era ela a Tchanaze, a donzela de Sena. Os homens se apaixonavam a cada passo que ela passava, as mulheres se enchiam de inveja ao seu vaguear pelas bandas e os defuntos, abandonavam as tumbas ao encontro da sua gostosice que fazia todos homens verter espermas pela boca.
Era ela a Xiluva em pessoa.
Não podia me desapaixonar dela.
Era ela.
Olhava para aquela mulher como se visse comida em tempo de fome, como se fosse àgua quando há sede.
A cada olho que olhava deixava de ser eu.
A queria como se de mim não quisesse mais.
Sentia-me amando aos 12.
Eu morreria logo que a tivesse, para não mais amar.
Carla também me queria, eu sei.
Carla olhava-me como se alguma coisa eu fosse, eu via.
Os olhos dela diziam-me e eu ouvia.
Nunca mais vi o olhar igual.
Vi a menina se contorcendo de desejos de me ter como se fosse o inferno a espera dos pecadores.
Como se fosse o cemitério a espera de defuntos.
Nunca vira o olhar igual na vida. Era apenas o da Carla.
Carla amava-me, eu sei.
Isso era tudo que não podia duvidar.
Carla me beijou e eu não podia me imaginar.
Nunca antes sentira gosto igual.
Na mesma hora, ela dizia também o mesmo. Eu sei.
Carla amava-me.
Beijara aquela boca em jeito de sangue nos anémicos.
E eu os queria como os homens que a uma prostituta se exaltam.
Carla me amou naquele beijo. Eu sei.
Era o Beijo da Mulata em um preto como eu.
Foi um e único que tivemos antes dela se ir.
Ela foi e eu fiquei…fiquei aqui.
Mas um dia voltaremos a nos desejar como nunca e a Mulata, me vai beijar de novo, como nunca o fizera com alguém.


¹- Beijo de Mulata: Também nome de uma planta medicinal

publicado por Revista Literatas às 01:16 | link