Sábado, 09.07.11

Dark Saga ll

Samuel da Costa - Brasil
                                                                 Para Aristides Sousa Maia
Não há nada de novo no front. Somente aquela velha guerra suja, subterrânea & covarde
             E uma triste constatação, que você deveria estar ao meu a lado, mas não está. Sou eu aldeia
                  Sou eu árvore...sou eu selvagem...sou eu livre...sou eu caído e derrotado...Tentando constatar o óbvio...Não há nada de novo no front...Somente aquela velha guerra suja, subterrânea & covarde...Que não acaba...E deveria acabar...Mas que já acabou...Mas não acaba...Que deveria ter acabado...Sou eu caído e derrotado...Constatando o óbvio. Que não há mais guerras para lutar.
Martiniano em seu íntimo relutava em aceitar a sua nova realidade, aquela rotina diária, mas o fato era que estava se habituando a ela. Estava se habituando à espera, às vezes breve com um raio, outrora demorada, como seu o tempo pairasse no ar. Às vezes de dia, outrora à noite, a chuva e o sol, o calor e o frio e por fim fome e a fartura. Mas uma coisa não mudava em absoluto, era cheiro de sangue, a pólvora queimada e o barulho de espada que se digladiavam no ar. O desespero de alguns e o ódio de outros, e ter que olhar nos olhos do inimigo e ele aos seus enquanto o matava. E pergunta do porquê de estar ali não lhe saía da cabeça, mesmo que promessas de liberdade lhe foram dadas pelo coronel Freitas ao se juntar a sua tropa. E era também um fato o seu novo hábito de manusear armas de fogo. Por um esfarrapado uniforme militar, e ter que matar os ‘’Caramurus’’, para quem estava habituado a caçar animais no velho mundo. Caçar com as mãos e se defender com as mãos, eram coisas muito distantes de sua realidade atual. Aprisionado, junto com seu povo, e posto a ferros para em seguida ser vendido como escravo em Nova Lisboa em Angola: ― Minha rainha Kianda! ― diz o amargurado Martiniano de si para si mesmo, enquanto tomava o amargo na cúia a contemplar a coxilha. Eram breves os momentos de paz, breves e dolorosos. Tinha que se esquecer da promessa que fizera ao seu rei, que iria proteger sua rainha com a própria vida se assim fosse preciso. Tinha feito essa promessa também para si mesmo, pois a amava. E deixa - lá para trás não estava em seus planos, como também mudar de nome. Mas a vergonha de ter abandonado sua rainha para trás era grande demais. Ela quis ficar e enfrentar o que tinha feito, não queria viver como uma cativa ou fugitiva. Apesar dos apelos dele, ela quis ficar e enfrentar seu destino.                        

publicado por Revista Literatas às 05:34 | link | comentar
Quarta-feira, 06.07.11

Dark Saga l

Samuel da Costa - Brasil
    
 Para Miguel Maria da Costa
Meu filho...quando tu nasceres...serás...tão belo, tão casto
Pois ela pariu! Um menino! Ah meu filho! Tão puro! Tão casto!
― Marguerite! Já podes servir o jantar! ―O tom da dona da casa era formal e pastoso, para disfarçar o ódio que sentia para com a mulher que a servia. ‘’Dona Madalena’’ sabia como se relacionavam os homens e as escravas em seu mundo. Escravos, e principalmente as escravas, deveriam servir seus senhores e senhoras em todos os sentidos. Quando o marido de Madalena voltou do mercado de escravos com um ‘’novo lote’’, trazendo aquela negra com porte de rainha, Madalena foi tomada de um adágio. O marido de Madalena, fazendeiro prospero e senhor de muitos escravos, decidiu por aquela escrava para dentro da casa grande. A dona da casa, não precisou fazer um grande esforço para descobrir o porquê de seu marido tomar tal atitude. Mas o que Madalena não sabia era que o nome dela era Kianda, e que ela fora rainha no velho mundo. Aprisionada, junto com seu povo, e posta a ferros, para em seguida ser vendida como escrava em Nova Lisboa em Angola. 
― Já podes se retirar Marguerite! ― Ordena Madalena, forçando um sotaque afrancesado, a sua serva após a mesma por a mesa.
― Por que não à chama de Margarida? Por que ‘’tem’’ que usar a língua dos ‘’outro’’! ―Esbraveja Gumercindo, pois aquele rústico dono de fazenda, jamais entenderia o porquê de uma dama nascida e criada na corte, com seus ‘ares’’ refinados frutos de aulas particulares e breves viagens ao estrangeiro, tratar os escravos daquela forma tão refinada.
― Deus...como pude cair tão baixo? E parar nesse fim de mundo! Sussurra a dama da casa de forma impensada. 
― Disse alguma coisa mulher?
― Não disse nada, meu marido...― O tom irónico de Madalena constrangia Gumercindo, pois a esposa ,que ele ‘’encomendara’’ da corte, tinha esse péssimo hábito de o desafiar, coisa que dificilmente uma ‘’nativa’’ faria. 
― Bom! Assim é bom, tu ‘’sabe’’ que teu pai me devia um bom dinheiro! ― Diz Gumercindo de Sousa Andrade de forma venal. ― E o meu filho...?
― A ama de leite o colocou para dormir, tu sabes meu marido, que Adamastor dorme a essa hora!  
― Eu só queria saber se o Dada ‘’ta’’ bem...só isso mulher. ― Diz Gumercindo em tom paternal.
― Não fale de boca cheia meu marido, quantas vezes eu tenho que dizer isso, meu Deus! ―Os maus modos à mesa a incomodava, como também o jeito brutal que ele tratava os escravos. Antes ela não precisava presenciar tais bestialidades que se praticava no mundo dos homens. Mas agora morando em uma província distante do império, a coisa era diferente. Tinha aquela gente negra e mestiça por toda parte, estavam tão próximos. Estavam tão presentes, no dia-a-dia, aqueles pobres diabos. E do outro lado a falta de um convívio civilizado, tinha a falta dos teatros, dos jornais, dos livros, revistas de moda vinda diretamente de Paris, das conversas nas soverterias e cafés com os amigos vindos do estrangeiro, um mundo tão cheio de novidades. 
― Sabe a prataria francesa e os cristais da Bohemia que me comprasse? ― diz a dama que depois leva um lenço à testa, era deselegante, mas um leve mal estar a estava irritando. ‘’Deus, só faltava essa agora, ficar doente nesse fim de mundo’’ diz a dama de si para si mesma.    
― O que foi mulher, não ‘’gosto’’ do te que mandei buscar? O que foi mulher ,que cara é essa?
― Nada, um mal-estar de repente. É que esta faltando umas peças, Marguerite me trás água, por favor! ―A dama se esforçava para não gritar, no seu íntimo ela já estava cansada de pedir para as escravas não se afastarem muito da mesa, mas era inútil dar ordens para aquela gente, essa era a visão da dama.  
Os espasmos que se seguiram foram violentos, o casal Sousa Andrade vomitava sangue. Gumercindo cai no chão atordoado, foi quando Kianda retorna à sala de forma lenta. Com um sorriso nos lábios e uma faca de prata em uma das mãos, ela se aproxima do dono da casa e abaixa-se para lhe falar aos ouvidos.
― Sabe coronel, eu estava esperando por isso faz tempo. Não vai mais me fazer visitar à noite! Vou ver você morrer bem devagar... 
publicado por Revista Literatas às 03:28 | link | comentar

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