Heliodoro Baptista

Heleliodoro Baptista nasceu a 19 de Maio. Faria este mês 65 anos. Era casado com a jornalista Celeste Mac-Artur, editora fotográfica do Diário de Moçambique, diário que se publica na Beira. Deixa viúva e quatro filhos.
O jornalalista, escritor e poeta nasceu em Gonhame, cidade de Quelimane, capital da província da Zambézia. Deixou escritas várias obras não publicadas e publicou «Por cima de toda a folha», «Nos joelhos do silêncio», «A filha de Tandy», entre outras peças dispersas.
Foi jornalista do «Notícias da Beira» onde chegou a ser chefe da redacção. Deixou de exercer a profissão de jornalista quando se incompatibilizou com a direcção do «Notícias” que se publica em Maputo, jornal de que na altura era o delegado na Beira. Trabalhou ainda no «Diário de Moçambique».
Como um cão
Como um cão curvo-me
e procuro ler nas marcas
que a noite não pôde
recolher o tempo.
Anima-me a superfície fabulária
onde o olhar do dia revolve
o que foi alvoroço vida
ou sinal ténue.
Detenho-me na pegada junto à cama
e a mão precavida incha a memo’ria
nenhuma sensação acende
o que já está perdido.
(Perdidos os meus passos? A minha voz?
é assim tão terrível o amor ao homem?
a justiça foi calcinada em que ritual?)
Pouso então devagarinho
o ouvido na parede húmida
e eis que uma sombra volta-se
num largo aceno de simpatia.
Na paz indizível sopra
a fina aragem desanoitecida
a leve impressão
de um cochichar
uma porta entreaberta
onde pulsa uma esperança
Presságio, minha Ave
(Ao Gringas e à Maria, poetas de outro blue-jazz)
Estou doente como um cão
num barco içado pela babugem
no ritmo Índico puro da monção;
Ohomem que eu disse ser,
inescrupuloso, de rara penugem,
é o capitão deste barco a arder
no seu cachimbo em forma de coração;
Longe, a ilha de seu destino, é vaga ideia
em qualquer privado jardim da consolação:
céu, mar, gaivotas de fogo, o pé-de-meia
de quando eu ainda pensava ter razão.
Este homem recorta-se no vosso céu de aço;
Ventos temporais, estrelas caídas de fronte,
Ocachimbo sem tabaco, o declinado horizonte
E o coqueiro híbrido na mão insurrecta, largo o espaço.
Já não estou, afinal, doente; para sempre fui e morri.
Mas pela noite áfrica, oceânica, regresso. Renasci.
publicado por Revista Literatas às 12:27 | link | comentar