Rua Araújo

De: Eduardo Quive - Maputo

Antes dissera-se com muita fama que havia um santuário carnificínico nas manhas de Maputo, a cidade grande, onde muitos homens se encontram. Uns para melhorar a vida, outros só para viver a sabor, a frescura e desgraça que se tornou numa graça dos deuses diabólicos.
Mas Maputo fora também cidade de mulheres, umas complementando a vida boa que os homens tanto alegavam haver no Ka Mpfumo, outras, eram mesmo a voz do sacrifício. Munidas de trouxas na cabeça, com a ponta da capulana sufocando as poucas notas que garantem o mutlutlu, para famílias numerosas.
Rua Araújo é também Maputo. É Ka Mpfumo, também. Muitos mares desviados do trajecto desaguam lá. Rua Araújo fora uma carnificina que comia tudo quanto mulher, mas também engolia quando podia os homens sexuados.
Xiluva também fora lá parar, na ambição da própria carne, que é fraca, mesmo com coração de pedra de tanta firmeza. Tudo duro mesmo. Como os verdadeiros Nkomanes e filhos daquelas terras fartas de desgraças deste mundo que é hoje.
- Não se faz mais mhamaba, não se faz mais invocação aos deuses, tudo era mesmo. Tudo já era – invocam-se os adultos, na voz a sabor da dor que se exalta com a sua pele de velhos.
Mas nem com isso. Tudo fora mesmo com outros Nhankwaves. Os verdadeiros desuses, já não existem, todos tombaram na frustração de ver os seus filhos a trocar Ucanhu, por cerveja e de a valorizarem tanto que não entornam quando escurece para dizer “cokwane Mevasse, sou eu Nambita, kanimambo vovô, por ter tirado todo mal de mim. Toma aí fole e um pouco de tontonto.” Conta a velha Xinengane, a herança do Deus me livre.
Contara isso de propósito a D. Destina, para de seguida perguntar.
- Kotile?
Calasse a mulher indignada com o propósito e pertinência em que se invoca tal nome daquela que fora sua filha antes de Antoninho decidir ser vivente das minas, mulumuzana das ma zulu. Desde que fora naquele século, só manda cartas, “mas há-de morrer cedo” diz D. Destina em pensamento alto de dor.
- É quem que vai morrer cedo?
- Nada vovô! Nada. Não é ninguém não. – Responde com voz de ni tsikli. Na saudade da sua solteirisse, que não lhe dá o direito de justificar-se a alguém.
Tal solteirisse se exalta em Nikotile, que vai saciando a fome masculina dos homens no Ka Mpfumo.
Deixou-se comer na carnificina de Rua Araújo e agora só ficou com uma coisa. Tal coisa que não lhe serviria em Deus me livre, por isso embora a saudade espreitasse seu coração em nenhum momento devia para lá voltar.
Escurece. As trevas se instalam no caos da avenida. É hora de ir a putaria.
Nikotile, enxuga as suas lágrimas com ânimo da sua primeira actividade laboral. Sai para Rua Araújo de simples vestido de Cai-cai que ganhara de presente na única vez que cortara o bolo do seu aniversário, cinco anos antes dos 16 que já tem.
Kotile é virgem.
Kotile vira das mais puras donzelas da descendência dos Nkomanes, parte vizinha com outros viventes do Deus me livre, mas saíra de lá numa aventura desconhecida e de para quedas veio cair na cidade que hoje lhe oferece emprego. Emprego de impurezas. Serviço de se entregar por metical aos homens!
Atravessa o alcatrão com chinelos de pipoca sem fazer barulho. É noite. A noite é sagrada em Nkomane. É sagrada em Deus me livre também. Por isso não pode fazer barulho. Os deuses não gostam. “A noite não é para cria”, recorda nos silenciosos passos de fé que dá até quando chega.
Sandra. Mulher de longos anos de trabalho com larga experiência no trabalho e funcionária de muito respeito na Rua Araújo, põe-se a recebe-la com gestos de bem-vindo. De seguida, manda-a mudar de roupa. O traje não fora com o estilo de trabalho que arranjara com tanta facilidade na cidade que muitos homens sofrem para encontrar trabalho e muitas mulheres vivem de vender amendoim torrado, pão e badjia, camarão e peixe frito na rua.
Mas Nikotile tivera sorte dos Deuses que a protegem. Teve trabalho logo-logo.
Chega no pequeno quarto improvisado para assuntos de suprema rapidez. Estranha o cenário molhado que caracteriza o lugar. Cheiro de homem e carne fria, suor e gemidos de gente grande. Olha para outro lado e vê só camas e postes improvisados. Não tem mala com roupa. Nem mesa nem cadeira nem nada. É só cama, e cheiro de homem misturado com cheiro de carne descosida, fervida ao calor.
Tenta controlar-se para não fazer perguntas. Mas não aguenta!
- É aqui mesmo… – e não para de observar com estranheza.
- Sim. Você vai trabalhar aqui. Fique feliz porque é o melhor. Muitas meninas não têm quartos por aqui e acabam tudo nas escadas emprestadas pelos guardas a cinquenta meticais por cada viagem!
- Quer dizer que vou viajar também? – Pergunta inocentemente.
- Menina. Você não veio aqui para brincar. É para trabalhar… e mais… viagem foi jeito de falar contigo. Toca a mexer. Manda vir o primeiro! - Grita para outro lado por onde vem um homem!

Pequeno Glossário
Mutlutlu – Caril (geralmente feito com maior simplicidade de ingredientes)
Ka Mpfumu – nome tradicional da cidade de Maputo.
Tontonto – aguardente.
Ukanhu - Bedida de Canhu!
Ni Tsiki – Deixa-me.
Mulumuzana – Chefe de Família!
Mhamba – Kuphalha – acto de invocar espírito antepassados.
Kanimambo – obrigado

 NOTA: Parte de estórias longas que pretendo contar em completo um dia!
publicado por Revista Literatas às 05:09 | link | comentar