O meu funeral


 David Bamo - Maputo

É menos um seguidor da doutrina marxista. É o final dos grandes prazeres proporcionados às donzelas da Gandeia, passando pelo Mussavene rumo a Nkomane. Fora uma infância sustentada pelos parágrafos de Nelson Mandela de um jovem que crescera trancado num quarto com livros de Marx e Pepetela. É o dia da minha. É dia 30 de Setembro.

Todos choramingam. Se contorcem de dor como nunca antes o fizeram quando fora um ser vivente. A última namorada do meu pai já não era ela. Chora que chega a aborrecer os tímpanos dos convidados ao banquete fúnebre de um falecido chamado eu.
Os meus irmãos estão desesperados. Não acreditam que parti para todo o sempre. Que só nos reencontraremos em terras onde só morram os defuntos, idos destas terras engolidas pela ambição vaginal e penisnal dos Homens.
Zizito, Dodoca e Tsanito, meus amigos de infância choram como se fossem viúvas preocupadas com a riqueza do marido ora moribundo. Naquela altura do meu funeral eu fora estrela porque todos não aceitavam a ideia de nunca mais comigo privar momentos sexuais e assexuais.
Defa minha última pita tornava-se, a partir daquele momento, numa viúva, mesmo antes de casada. Foram anos e anos de penetração em vão. Defa perdera toda a sua inocência no meu quarto. O pai dela, tio Fedinho, de tanto chorar iguala-se a uma virgem que delira pela sua primeira noite de sexo. A minha morte é para ele o fim da família Cumba, os porcos.

No meu funeral também não faltaram as prostitutas da última rua da Baixa, que mijam sem parar alegando que cada um chora por onde sente saudades. A pior dor daquelas mulheres da vida é saber que nunca mais terão as minhas moedas, porque em vida fui um cliente assíduo dos serviços das putas da Rua do Bagamoyo.

Os Muitos vizinhos, mesmo quem não fora meu simpatizante, choram pelo pavor e terror de saberem que um dia deste mundo irão partir para nunca mais voltar. Eu fui o primeiro, azar meu!
Em vida costumava ler muito sobre a morte. Desvendei vários mistérios. Visitei muitos escritos que versam sobre o assunto. Participei em muitos funerais. Vi homens e mulheres perdidos na frustração por verem as pessoas que mais amavam eternamente condenados no caixão. Hoje posso sentir isso.
Mas sinto com uma outra literacia, vejo que o prazer que nos é sugerido pelo sexo é o mesmo o que a morte nos proporciona. A diferença é que, por exemplo, uma virgem teme sempre sentir a penetração do pénis pela primeira vez mas depois de prova-lo, torna-se escrava do mesmo, repetindo a doze umas mil tantas vezes.
Mas o sabor da morte é temido por ser único, aliás, a morte é o único fenómeno que ocorre só uma vez, daí a necessidade de a considerarmos o acontecimento mais nobre do ser humano. Eu como morto atingi o nível mais alto entre as criaturas terrenas.
publicado por Revista Literatas às 00:58 | link | comentar