Desnacionalizado


Izidine Jaime – Maputo 

Sou cidadão oriundo de uma nação onde os partos não têm maternidade.
Onde a noite é uma aventura desenhando o sol na insónia das nuvens, e, as fogueiras contam histórias no sul da noite, galanteando a música da natureza na boca dos grilos.
Sou como um estrangeiro apatriado pelo País que nascera, um País sem ventre, sem vida, por onde a fome vende aos homens o desafio de viver.
 Os impostos vendem buracos nas estradas e a pobreza é uma anáfora na boca da riqueza no ouvido dos pobres. (Somos ricos de Pobreza na riqueza que temos).  
Uma vez morto antes de nascer, vi no oráculo do mundo a sapiência fugindo dos homens, a tecnologia plantando a preguiça nos ombros da prosperidade e a raça da natureza a caminho da extinção. E os homens culpam ao tempo pelo actual reflexo da humanidade. Porquê? Foi então o vento que pariu a globalização?
Sou de um País onde o Lixo tem grandes mansões nos cantos da cidade, transbordando das lixeiras, sacia a fome dos homens com receitas desumanizadas e um aroma patrono das ruas ditando a não passagem de narinas abertas.
Ai daqueles que não tem transporte próprio, pois os transportes públicos são uma espécie de latas ensardinhando homens, os aromas se misturam, os sovacos se libertam libertando outra liberdade que não existe.
Nos tempos em que o tempo esquece-se de nós, a terra ajoelha-se de joelhos descalços e, na oração do tempo, os ventos fogem velozmente desrespeitando o parentesco das árvores, não sei que légua participam mas a meta é indefinida. Ah! O treinador do ciclone também participa despindo tudo quanto é nada. As nuvens abençoam torrencialmente os rios que embriagados vomitam a água para a margem das casas levando tudo do nada que tem. E nem si quer guardamos a chuva para a época agrícola e no rebolar do tempo ficam sem números para indemnizar a seca.
Sou de um País onde os naturais de lá não são de la, sem identidade própria vivem querendo ser os outros,   “uma coisa é ser de Moçambique e a outra é ser moçambicano”. 
publicado por Revista Literatas às 01:06 | link