Crónicas Timorenses

Joana Ruas – Lisboa

Abordei este segundo volume da trilogia A Pedra e a Folha, ainda antes de de ter iniciado a investigação que me levaria ao primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Tinha entre mãos as fontes escritas e tinha ainda as que me haviam sido fornecidas e que pertenciam à tradição oral.   A análise desse material levou-me à conclusão de que uma vez concretizada a unificação administrativa do território,   em finais do século XIX, este, embora tenha continuado a estar administrativamente dividido em reinos,   esses reinos  eram assim chamados formalmente pois os seus reis haviam deixado de ser vassalos do rei de Portugal, para serem apenas súbditos, não sendo os seus reinos nem já independentes nem mesmo autónomos. Apenas um, Manufhai, ousava ainda proclamar a sua independência face ao poder central.
Constatei, pois, que a construção erguida durante séculos pela política de casados de Afonso de Albuquerque e mais tarde reforçada pela luta contra os Holandeses levada a cabo sobretudo pelos governadores pernambucanos, ruíra com as guerras de pacificação do território. Para um observador externo, a  existência colectiva do povo timorense tinha sofrido  uma descontinuidade,   pois uma vez vencido na  guerra de Manufhai,   os episódios novos que viria a sofrer já não eram  um prolongamento dos antigos. Perante estes novos dados da realidade,   olhei para o material que tinha entre mãos. Fixar a história destes povos na sua longa e perigosa marcha é extremamente difícil. Uma das razões pode ser aduzida do facto da sua vida colectiva não possuir a característica ocidental da circularidade imutável em que mesmo com retrocessos se processa uma continuidade na vivência histórica. Na verdade, havia já factores de coesão que se viriam a manifestar na Resistência ao invasor indonésio e que paradoxalmente surgiu no território com uma corrente nacionalista que estava sintonizada com os nacionalistas indonésios liderados por Sukarno na sequência da invasão nipónica.
Em A Batalha das Lágrimas a intriga, de facto, perde-se na linearidade factual dos sucessivos episódios da guerra. A intriga perde-se porque estas histórias são histórias da resistência e dos vencidos e não as dos vencedores. Nos vencidos, à excepção dos que possuem uma arte, a arte da resistência que  Dante, na Divina Comédia , define como  a capacidade de resistência às adversidades e aos inimigos políticos, tudo se dissolve no inacabado porque a espoliação de que foram vítimas lhes rouba os fios da própria existência. Havia ainda que ponderar que na nossa cultura há uma oposição entre o oral e o escrito. Nas culturas orientais essa oposição não existe. Mesmo na cultura chinesa, a oposição que existe  é entre o gesto e o discurso. Lembremos a Questão dos Ritos Chineses, essa controvérsia que se travou nos séculos XVII e XVIII, isto é de 1631 a 1743, quando se iniciava a evangelização da China. Assim, na medida em que a escrita muda a natureza da narrativa oral, pois pelo  facto de passar para a forma escrita, o texto corta as amarras que o ligavam à oralidade, chamei-lhes crónicas e não contos . Crónicas no sentido dado às Crónicas Italianas de Stendhal, pela diversidade das fontes, escritas e orais e pela liberdade de invenção no tocante aos personagens mas não aos factos que se erguem sobre fundo histórico.
Todas estas crónicas têm as suas fontes históricas assinaladas nas notas finais de cada uma delas. Entre as fontes portuguesas  não se verifica já a dispersão das fontes e dos documentos que estão na base do primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Ora esta concentração resulta da racionalidade imposta pela mudança  de estatuto da colónia.   Na documentação que esteve na base do 1º volume,   à medida que li todos aqueles  livros, relatórios militares,  documentação avulsa e notícias dos jornais, os personagens  foram-se-me  impondo, quer porque os autores desses documentos os consideravam heróis nacionais, fossem portugueses, goeses ou timorenses, quer porque sendo gente obscura acedeu à História por infracção, isto é, as suas vidas cruzaram-se com o Poder, passando a fazer parte dessa pluralidade de vozes que se perdem no tempo, os infames como os descreveu Michel Foucault em La Vie des Hommes Infâmes : «Vidas breves, achadas a esmo em livros e documentos».
Ora depois da pacificação do território como lhe chamou Celestino da Silva, tudo passou a ser diferente aos olhares dos observadores, militares e administrativos que relataram os acontecimentos havidos no século XX, em vésperas da 1ª Guerra Mundial: à excepção de D. Boaventura de Manufhai, não foi registado nome algum de timorense, todos passaram à categoria dos vastos e anónimos, fenómeno registado  por Rilke e mais tarde por Canetti como os «sem nome».
É minha convicção que o povo de Timor-Leste rasgou a noite de um longo sofrimento e de uma deriva histórica perigosa para a sua sobrevivência como povo até nos surpreender a todos nós Portugueses  e ao mundo inteiro tornando-se a primeira nação do século XXI, Timor Loro Sae.A sua coragem, determinação e capacidade de sofrimento foram por assim dizer a minha veste de luz, e  acolhi a inspiração que deles recebi nesses duros tempos de horror e de esperança. Indo a mais de meio do meu trabalho, apenas espero ter contribuído para a definitiva reconciliação da família timorense. Sobre tantos personagens colhidos aqui e ali apenas vos digo como Saint-Exupéry em O Principezinho :«Só se vê com o coração; o essencial é invisível aos olhos». 
  
Crónicas Timorenses — estas crónicas abrangem um período que vai de 1910 a 1965.Dada a interferência no território de vários protagonismos  quer antes quer depois da 2ª Guerra Mundial, a autora deu à progressão dessa realidade complexa a forma de contos  por se basearem em  documentação escrita e oral. São estas as crónicas: D. Manuel dos Remédios —  breve texto sobre o exílio e morte na serra de Lavater deste liberal timorense perseguido pelas autoridades militares e religiosas em 1878;  O Cofre e a Espada — a autora desenvolve e aprofunda, a partir de personagens timorenses, a trama que leva  à guerra de Manufahi  quando em Portugal vigorava o novo regime — a República. A autora segue o desenrolar deste conflito baseando-se  na obra do oficial da Armada,  Jaime do Inso, intitulada Timor-1912 ;Folhas soltas no bosque — a acção deste conto que se baseia nas informações contidas  no livro Funo-A Guerra em Timor de Carlos Cal Brandão, decorre no rescaldo da  retirada  nipónica de Timor, em Agosto de 1945; Funan-Mutin (Branca- Flor) —  a chegada dos oficiais milicianos e suas esposas a Timor-Leste, as consequências  do golpe contra Sukarno e também   sobre os ventos de mudança que se anunciavam em Portugal e nas colónias.  

publicado por Revista Literatas às 03:24 | link | comentar