Sexta-feira, 13.05.11

O meu funeral


 David Bamo - Maputo

É menos um seguidor da doutrina marxista. É o final dos grandes prazeres proporcionados às donzelas da Gandeia, passando pelo Mussavene rumo a Nkomane. Fora uma infância sustentada pelos parágrafos de Nelson Mandela de um jovem que crescera trancado num quarto com livros de Marx e Pepetela. É o dia da minha. É dia 30 de Setembro.

Todos choramingam. Se contorcem de dor como nunca antes o fizeram quando fora um ser vivente. A última namorada do meu pai já não era ela. Chora que chega a aborrecer os tímpanos dos convidados ao banquete fúnebre de um falecido chamado eu.
Os meus irmãos estão desesperados. Não acreditam que parti para todo o sempre. Que só nos reencontraremos em terras onde só morram os defuntos, idos destas terras engolidas pela ambição vaginal e penisnal dos Homens.
Zizito, Dodoca e Tsanito, meus amigos de infância choram como se fossem viúvas preocupadas com a riqueza do marido ora moribundo. Naquela altura do meu funeral eu fora estrela porque todos não aceitavam a ideia de nunca mais comigo privar momentos sexuais e assexuais.
Defa minha última pita tornava-se, a partir daquele momento, numa viúva, mesmo antes de casada. Foram anos e anos de penetração em vão. Defa perdera toda a sua inocência no meu quarto. O pai dela, tio Fedinho, de tanto chorar iguala-se a uma virgem que delira pela sua primeira noite de sexo. A minha morte é para ele o fim da família Cumba, os porcos.

No meu funeral também não faltaram as prostitutas da última rua da Baixa, que mijam sem parar alegando que cada um chora por onde sente saudades. A pior dor daquelas mulheres da vida é saber que nunca mais terão as minhas moedas, porque em vida fui um cliente assíduo dos serviços das putas da Rua do Bagamoyo.

Os Muitos vizinhos, mesmo quem não fora meu simpatizante, choram pelo pavor e terror de saberem que um dia deste mundo irão partir para nunca mais voltar. Eu fui o primeiro, azar meu!
Em vida costumava ler muito sobre a morte. Desvendei vários mistérios. Visitei muitos escritos que versam sobre o assunto. Participei em muitos funerais. Vi homens e mulheres perdidos na frustração por verem as pessoas que mais amavam eternamente condenados no caixão. Hoje posso sentir isso.
Mas sinto com uma outra literacia, vejo que o prazer que nos é sugerido pelo sexo é o mesmo o que a morte nos proporciona. A diferença é que, por exemplo, uma virgem teme sempre sentir a penetração do pénis pela primeira vez mas depois de prova-lo, torna-se escrava do mesmo, repetindo a doze umas mil tantas vezes.
Mas o sabor da morte é temido por ser único, aliás, a morte é o único fenómeno que ocorre só uma vez, daí a necessidade de a considerarmos o acontecimento mais nobre do ser humano. Eu como morto atingi o nível mais alto entre as criaturas terrenas.
publicado por Revista Literatas às 00:58 | link | comentar

Vou-me Embora de Itararé

Silas Correa Leite - Itararé - Brasil

Vou-me embora de Itararé
Vou servir na Legião Estrangeira
Vou amarrar meu burro na Praça da Paz Celestial na China
Vou namorar a Mia Farrow e me casar direitinho com ela
Ter três filhos, Peter, Paul and Mary

Vou-me embora de Itararé
Vou levar bolinhos de Piruás e Licor de Marolo
Vou contar causos do Zé Maria de Santa Cruz dos Lopes
Vou contar palha dizendo que sou amigo do Pintor Jorge Chuéri
Vou comprar um simca chambord
E tocar saxofone de cambuquira num buraco de Metro de Nova York

Vou-me embora de Itararé
(Minha Santa Itararé das Artes, Cidade Poema)
Vou esquecer o Bar do Calixtrato
Vou entrar para um mosteiro budista de Nepal
Vou amar The Beatles, Mahatma Gandhi e Raquel Welch pedaçuda
Ler as histórias de Bertold Brecht, Vladimir Maiakovski e Frederico Garcia Lorca
E aprender a cantar a Canção da Lua nas montanhas da Rússia czarista

Pito carito, Dito Rufino, vou voltar para Itararé
Com uma perna de pau e um olho de vidro
Sabendo tocar bandoneon e falando a língua dos anjos
Vou trazer uma cruz cristã ortodoxa de ouro
E uma lágrima xadrez tirada do olho de um peixe que não existe
E com saudades da terra-mãe, tendo a minha alma pegajenta e triste
Vou contar maviosos causos de viagens e prosopopéias
Voações... trigos e joios... encantários  e contentezas
Que todos os meus amigos baristas dirão, o poetinha
Pirou de vereda: viajou na maionese, viajou no angu de bagre, na batatinha...

Vou ser enterrado em Itararé, seus boêmios caiporas!
Colocarão a bandeira de Itararé no meu peito de andorinha sem breque
Contarão causos, lerão meus poemas de amor a Itararé
E anjos com caras pintadas de palhaços mambembes
No Cemitério Lágrima do Céu de Itararé
Irão me benvindar com cachos de estrelas e cervejas de nuvens...

Vou-me embora para uma maravilhosa Itararé celeste
Ah meus camaradas da fauna notívaga de Itararé
Vou fazer poemas escarlates para Deus Criador
E lá do céu escreverei poemas saudosos sobre Itararé que eu amo tanto
Que o bom Deus nessa Itararezinha do futural devir
Haverá de me abençoar, me perdoar e sorrir
Com meus causos e acontecências de tanto viver
Tanto viajar, tanto sonhar, tanto EXISTIR

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publicado por Revista Literatas às 00:52 | link | comentar

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